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Savalliana
de Rui Vieira Nery
Publicado no Jornal Expresso a 21/04/2000

A COMPANHIA Nacional de Bailado (CNB) estreia o Programa 5 convidando Rui Lopes Graça a coreografar a sua primeira peça de noite inteira, Savalliana (que toma o nome de Jordi Savall, maestro e instrumentista catalão responsável pelo levantamento de grande parte do espólio musical ibérico antigo), que a CNB apresenta, em Julho, no Joyce Theater de Nova Iorque. Para este bailado, Lopes Graça trabalhou em colaboração com os bailarinos, processo que iniciou com Llanto. Diz ele: «Já começa a haver uma cumplicidade entre nós. É um processo de confiança que as pessoas seguem. O que peço hoje aos bailarinos não tem nada a ver com o que pedia há uns anos. Este trabalho depende muito deles. Aliás, não acredito nos coreógrafos de ideias feitas que as impõem aos bailarinos em estúdio. Também coreografo bastante com o meu corpo, não sou é capaz de fazer o que eles fazem.»

Das ideias iniciais, que incluíam um conjunto de discursos típicos do século XX, entre os quais o da publicidade, que é capaz de reduzir os indivíduos a números, o coreógrafo guardou vagas ressonâncias e procurou trabalhar o ser humano como motor individual do imaginário colectivo. Este é o ponto de partida de Savalliana, que é desenvolvido numa visão pragmática mas alegre da vida, tendo por mote a comunhão com os outros mas também a solidão como experiências de vida do indivíduo, numa busca incessante de equilíbrio. A música antiga, diz Rui Lopes Graça, «tem uma sonoridade de que gosto muito e tem, ao mesmo tempo, uma lógica de composição muito contemporânea. Ela permite-me uma grande liberdade de experimentação do ponto de vista da composição coreográfica. Os ambientes que se podem criar são muito variados: da mais profunda alegria a um intimismo nostálgico ou a uma grande tristeza». Todas estas gradações são experimentadas a partir da selecção musical feita por Rui Vieira Nery sobre interpretações de música ibérica dos séculos XVI e XVII.

Este bailado, estruturado a partir da ideia de dinâmica entre o indivíduo e o colectivo, entre a tentativa de afirmar a individualidade sempre em relação com o outro, tem figurinos de Vera Castro e utiliza uma cenografia de João Mendes Ribeiro que sublinha «a fragmentação do sentido de comunidade». A maior parte das sequências coreográficas foram criadas individualmente e trabalhadas para poderem ser ligadas, transformadas em duetos ou cenas de grupo. O método de trabalho foi uma descoberta decorrente da dificuldade em ensaiar com os bailarinos, que vivem o período mais ocupado de sempre da companhia, e, por outro lado, um critério que tem tudo a ver com o conteúdo da peça: afirma-se a individualidade no conjunto. O movimento com contraponto que utiliza vem do seu gosto de trabalhar as articulações: «Penso sempre nas articulações e nos seus raios de rotação, gosto de chegar a esse limite e fazê-lo seguir. Às vezes sigo isso com a mesma pessoa, outras vezes é outra pessoa que pega nesse movimento e o faz seguir, transformando-o noutra coisa.» 
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