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São sons tribais, vindos dos quatro cantos do mundo até Benfica, onde os Dumdumba fazem a festa.

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Imagens de
José Pedro Tomaz
Texto de
Bernado Mendonça
Jornal Expresso
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Projectos
Dumdumba
Os feiticeiros do Som

Texto de Bernardo Mendonça - Jornal Expresso em 4 de Maio de 2001

Num cenário, algures em Benfica, marcado por armazéns destruídos, paus queimados e fachadas de pedra, um grupo de jovens arruma, em meia-lua, os bidões de plástico, «jambés», e «kenkenis» para dar início ao seu ritual de som.

Este ensaio de disciplina, empenho e suor, orientado pela voz de Nuno Patrício, o mestre do grupo, é vivido com grande alegria e entusiasmo por todos os intervenientes, que se preparam para tocar o ritmo «zauli» (percussão «Mandingue» originária da zona da Guiné-Conakri).

Em passo de corrida, os elementos dirigem-se aos camarins improvisados do armazém ocupado e, mais uma vez, vestem-se a rigor. Em frente ao espelho, os músicos vêem os seus rostos ganharem ambiguidade e mistério com as coloridas máscaras africanas, que lhes completam a roupagem de trapos, inspirada na antiga tradição dos «Caretos» de Trás-os-Montes. Uma fusão original da história de dois povos.

No meio da confusão, há sempre lugar para alguns imprevistos: um par de calças trocado, uma cabeleira que perde espuma. «Ó Nuno, tens que ir ao cabeleireiro!», graceja uma das raparigas do grupo.

No interior do amplo armazém número 13, os jovens músicos são vigiados pelas máscaras étnicas que adornam a parede e pelos diversos instrumentos musicais que despertam sons de todo o mundo. Estão ali 0 kalimbofone, a tarola de samba, o berimbau brasileiro, o sangba, o dunumba, ou mesmo um curioso instrumento africano denominado tambor de água. Objectos que, embora pouco familiares, seduzem qualquer visitante inexperiente.

Ao grito de ordem do mestre, inicia-se, no pátio exterior, o movimento frenético das baquetas sobre os bidões de plástico, transformando-se o ambiente numa festa tribal onde se conseguem ouvir as memórias profundas da África negra. Este espectáculo, com uma história própria, segue uma dramaturgia criada pelo grupo para vestir cada um dos intervenientes. «Nós somos uma tribo de xamãs (feiticeiros), e cada personagem tem o seu significado próprio, consoante o xamã-tribal a que pertence», explica Nuno Patrício.

O mestre do grupo, de 29 anos, apresenta-se como o feiticeiro desta «tribo urbana», lembrando que foi o acaso que juntou estes jovens num «workshop» dado por si, há três anos. E daí nasceu o grupo de percussão os Dumdumba, com 11 elementos fixos com idades que oscilam entre os 18 e os 30 anos. Dumdumba, o nome da formação, nasceu a pensar no conjunto dos instrumentos africanos que acompanham o jambé (tambor proveniente da África Central).

Uma das características mais evidentes neste projecto é a fusão de várias áreas do espectáculo. «Eu queria fazer parte de um projecto que tivesse vários elementos fundamentais na minha concepção artística, aliando a percussão ao teatro, à dança e às máscaras», justifica o músico.

Nuno recorda-se dos seus tempos de escuteiro, das noites em que aprendeu a tocar guitarra à volta da fogueira e de como se interessou pelo berimbau, o instrumento musical que dá ritmo à dança capoeira. Na sua história não houve grandes mestres. «Aconteceu-me o mesmo que à maior parte das pessoas: fui tocando e aprendendo sozinho». Uma técnica que o levou a fazer evoluir constantemente o método de trabalho e o domínio dos instrumentos. «Temos que ler muito sobre isto, ouvir, ver e 0praticar bastante», diz ele, à laia de receita.

Desde muito cedo, com vontade de espreitar novas fronteiras, usou o «inter-rail» por toda a Europa, e participou em vários festivais internacionais. «Nas viagens que fiz encontrei montes de pessoas que me ensinaram novas coisas sobre a música e sobre a essência das tribos».

Também guardado entre as recordações do passado está o projecto musical que mais o marcou,um grupo chamado os Boomerang, onde um punhado de amigos emprestava uma boa dose de energia aos espectáculos para, aos poucos, dominar a técnica da percussão. «Nós tínhamos muita pureza e empenho naquilo que fazíamos, e o espírito de grupo era óptimo», recorda Nuno.

Nuno lembra como, na altura, os Boomerang surpreenderam o público com a sua maneira própria de tocar e estar em palco, marcando um estilo diferente na percussão. «Fizemos alguns concertos no Centro Cultural de Belém e no Parque das Nações que foram muito bem recebidos».

No seu passado musical cruza-se a experiência de ter integrado a equipa da «Peregrinação» na Expo-98, de ter participado na Expo-2000, em Hannover, assim como nos projectos «Adufe», de José Salgueiro, «O ó que o som tem» e «Tocárrufar», entre muitos outros.

Na agenda dos Dumdumba, que regularmente prevê cursos de formação para crianças e jovens, estão a ser programadas algumas «performances» na discoteca Lux, que animarão os noctívagos de Lisboa.

Num futuro longínquo, o mestre da percussão imagina-se, com longos cabelos brancos, a continuar a aprender e a procurar os ritmos que o emocionam, originários de tribos dos quatro cantos do mundo.

«Quando for velhinho ainda vou continuar a estudar duas ou três horas por dia, numa busca constante de novas sonoridades e instrumentos, porque nesta área está-se constantemente em evolução». Voltar ao Topo
Texto de Bernardo Mendonça - Jornal Expresso em 4 de Maio de 2001

 

 

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