
César Prata
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Excertos Musicais
Costureira
Casório
Carta
Cancela
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Aquilo Teatro
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Apresentação
Canções do Ceguinho
Os relatos do pitoresco
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Outubro Dia 11 Gouveia, 21:30h
Novembro Dia 16 Manteigas, 21:30h | Dia 23 Guarda - Avelâs da Ribeira,
21:30h
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Adaptação de um texto de José
Alberto Ferreira
As "Canções do Ceguinho" é um espectáculo que evoca a
memória de muitas histórias cantadas e tocadas na rua, em troco de alguma atenção e de
uma esmola de sobrevivência. Histórias e ambientes agora recuperados num espectáculo de
recolhas.César Prata, um músico natural da Guarda,
lembrou-se de dar voz às canções do ceguinho, relembrando uma prática que
quase caiu no esquecimento - embora haja ainda quem se lembre dos folhetos vendidos e
cantados por cegos em mercados e romarias. Esses cegos, que se faziam acompanhar por uma
concertina ou um bandolim, cantavam histórias de uma violência tão real que parecia
inventada. Ao mesmo tempo vendiam folhetos que continham os versos e algumas ilustrações
a condizer.
Muitas vezes eram ajudados pela mulher ou por uma criança que
estendia a mão à caridade. Outras vezes eram apenas acompanhados por um cão. Os
folhetos inscrevem-se na tradição da literatura de cordel e são preciosos documentos
sobre um quotidiano feito de violência: sangue, faca e alguidar. As canções, agora
recriadas por César Prata, foram recolhidas por Américo Rodrigues junto de vários
informantes de Aldeia do Bispo, Avelãs da Ribeira, Vela e Feital.

Um cego
acompanhado pela mulher, que traz com ela os folhetos com várias histórias de sangue,
faca e alguidar. |
Vem de muito longe a memória dos cegos papelistas que, por
mercados, feiras e romarias, apregoavam casos estranhos, sucessos inauditos, virtudes
hagiográficas e relatos noticiosos, às vezes prognósticos e adivinhações. Tirando
partido do lugar de sapiência e justeza que ao cego se atribui, anunciavam matéria
oscilante entre a mistificação e a informação, entre a crendice e o pitoresco
informativo, entre os casos conhecidos e as tragédias de folhetim, por vezes ao som rouco
do harmónio ou da rabeca. Em tempos mais recentes, até os sucessos musicais e os êxitos
popularizados pela rádio e pela televisão davam matéria prima, de mistura com outras
histórias, a estes bardos da era mediática, menos do lado da poética do espanto dos
seus antecessores do que de uma lógica do reconhecimento com que interminavelmente
replicavam os seus objectos.
Os cegos papelistas do século XVIII vendiam as histórias
impressas em folhetos de papel barato, com letra miúda de má qualidade, por vezes com
umas quantas imagens a alimentar o fascínio das palavras que contavam histórias em
versos de pé quebrado, pouco férteis nos mecanismos estruturais e votadas a fazer
permanecer receitas testadas e de sucesso garantido. Os cegos cantores do século XX
seguiam a mesma receita, com as letras das músicas e as fotografias das estrelas do
momento à mistura. Uns e outros deram origem àquela quantidade imensa de objectos
escritos que atestam a vitalidade da cultura pobre e que a cultura rica
(o binómio é de Arnaldo Saraiva). São por isso raros os exemplares que testemunhem essa
memória. E se os mais antigos ainda se encontram em bibliotecas especializadas, de acesso
restrito, constituindo o corpus da literatura de cordel, os folhetos mais recentes foram
certamente menos bafejados pela sorte. As letras das músicas ficaram perdidas na voragem
do mundo do espectáculo, todos os anos novas e esquecidas logo depois. Uns e outros sem
alcançarem a dignidade literária e sem se acolherem ao estatuto do autor para sobreviver
na memória do sistema cultural.
Quanto ao cego, papelista e cantor, não será demais dizer que o
século XX assistiu (quase) indiferente às profundas mutações que a sua figura sofreu e
que levaram ao seu inelutável desaparecimento. Resta-nos o seu lugar central no
imaginário colectivo, onde a expressão artística e criadora tem sabido, hoje como no
passado lembrem-se as fantasias românticas sobre o papel do bardo na construção
da identidade das nações , reencontrar a personagem na sua mais autêntica
presença, e assim tem permitido o nosso reencontro com as raízes da cultura e com as
margens quase submersas do nosso imaginário. Não resisto a apontar como exemplar o Rio
do ouro, de Paulo Rocha (1998), onde José Mário Branco canta o romance do filme com
versos de Regina Guimarães, acompanhado pelo rapaz da rabeca. O encontro que neste
espectáculo se concretiza abre também, à sua maneira, as portas de ingresso e de
regresso a esse imaginário de coisas perdidas, de sucessos e crenças, de histórias
cantadas e contadas pela voz funda e luminosa do cego.
César Prata, o autor desta ideia, nasceu na Guarda, há trinta e
oito anos, num sábado frio de Janeiro. Aprendeu piano e viola; interessou-se, mais tarde,
por alguns cordofones populares: bandolim, cavaquinho e braguesa. Participou em diversos
festivais juvenis, primeiro sozinho e mais tarde acompanhado por dois amigos, dando assim
início a um projecto musical: Viv'alma. Tratava-se de interpretar música portuguesa
(originais e versões). Quando da sua passagem por Coimbra integrou o GEFAC (Grupo de
Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra).
No campo do teatro, compôs a música para algumas peças do
Aquilo, nomeadamente: "Desconcerto", "Entremez da filha prenha" e
"Entremez da morte bem sentida", "Aldeia de Loucos" (Teatro da Vaca
Fria); participou noutras encenações do grupo como actor: "Amor a Dois" e
"Homem e Companhia".
Concebeu e apresentou os espectáculos Do berço à
cova (a vida através de canções tradicionais) e Rua do Encontro
(espectáculo em que se reuniam, pela sua voz, vários nomes e tendências da música
portuguesa Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Jorge Palma, Sétima Legião,
GNR, Rádio Macau e José Afonso, entre outros. Desde Junho que apresenta em diversos
palcos o espectáculo Canções do Ceguinho, encontrando-se a preparar a
edição de um CD, a partir desse mesmo espectáculo. 
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