
José Maria Fernandes, Mogadouro
Para uma
completa reportagem fotográfica, visite o site www.gaitadefoles.net
|
Reportagem
Vendaval de Música
em Stª Maria da Feira
Dias 8 e 9 de Junho de 2002
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Texto: Francisco Pimenta |
Fonte: www.gaitadefoles.netHistórias, conversas e foles cheios. Onde há gaiteiros, há
festa. Foi exactamente isto que se viveu durante dois dias intensos em Stª Maria da
Feira, com a segunda edição do encontro de gaiteiros, vindos de vários pontos do país.
Nos dias 8 e 9 de Junho de 2002, as Associações Lelia Doura e
Gaita de Foles tiveram a oportunidade de organizar em terras nortenhas mais um Encontro
Nacional de Gaiteiros, desta feita a segunda edição. Isso foi possível graças ao
interesse demonstrado pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira em acolher e
patrocinar o evento, tendo este sido integrado na Viagem Medieval, iniciativa realizada
anualmente por esta Câmara Municipal.
Pela nossa parte não existem dúvidas quanto ao II Encontro Nacional de Gaiteiros: o seu
sucesso conseguiu superar o que havia sido obtido na edição inaugural do evento em 2001
no Pinhal Novo concelho de Palmela. Para esse sucesso contribuiu, em parte, o
cenário onde o Encontro decorreu, que teve como pano de fundo o
Castelo de Santa Maria da Feira e a colina verdejante que se espraia até bem perto de um
rio Cáster discreto. A ajudar à festa só mesmo o ambiente próprio de uma Feira
Medieval onde ganham vida as mais variadas recriações históricas. Neste
quadro idílico só faltava mesmo a presença da música, em especial a das
gaitas-de-fole...

Ouvir contar as histórias dos Gaiteiros |
Na véspera de partirem para Santa Maria da Feira muitos dos
gaiteiros participantes no evento fariam os mais elementares preparativos próprios de
quem é solicitado para tocar uma gaitada. De acordo com a sabedoria popular
ligada a estas coisas da gaita-de-fole, antes de tocar é necessário colocar as palhetas
de molho durante algumas horas, de preferência em aguardente: "Só assim é
possível obter uma boa sonoridade", diziam. Os percussionistas, esses, dariam os
últimos retoques na afinação das peles das caixas e dos bombos, companheiros
indissociáveis do gaiteiro.
À imagem do que sucedeu na primeira edição foram muitos os
participantes convidados a rumar até Santa Maria da Feira e participar no II Encontro
Nacional de Gaiteiros.
Provindos da Estremadura (Península de Setúbal, Lisboa, Torres
Vedras, Lourinhã e Tomar), região de Coimbra, cidade do Porto, Minho (Braga) e
Trás-os-Montes, os cerca de 25 grupos e quase 100 músicos foram chegando com mais ou
menos atraso ao local de Encontro.
Entre os participantes foi altura de reatar amizades criadas no ano anterior no Pinhal
Novo: Eh lá...! Tá cá este ano outra vez ?! O ambiente
animou-se com conversas desenroladas em amena cavaqueira e tudo soube melhor em torno de
um almoço e de uma boa pinga que, curiosamente, quase ia faltando. Hum... Não se brinca
com coisas sérias!
O evento abriu precisamente com este almoço-convívio, reservado à
organização e aos músicos. De um lado a comida e o alarido em torno dela, do outro as
gaitas antigas dispostas sobre as mesas, assim como uma catrefada de caixas e bombos.
E pronto, já está... Terminada a refeição nem deu tempo para
tomar o café sossegado e beber uma aguardentezita! O primeiro artista ensaiava já um
toque modal com que ia iniciar a primeira gaitada do Encontro e a legião
enorme de percussionistas agitou-se: procurava ofegante os instrumentos com que encheria
de ritmo o espaço comensal.
Eram sete ou oito para um gaiteiro, às vezes dois e mesmo três. A
luta foi desigual mas os gaiteiros sobreviveram. Começou o ti Roque, de Torres
Vedras, com um Corridinho. De seguida tocou António Ribeiro do Porto , mais
conhecido por Toni das Gaitas, e também Toniber, gaiteiro de
Fonte da Vaca, Pinhal Novo...
Os músicos sucediam-se, o mote estava dado e a animação
prosseguiu na rua. Uma vez cá fora toda a gente se concentrou em frente à sede da Viagem
Medieval. O tempo estava farrusco, preparado para estragar a festa. Talvez São Pedro
tenha ficado atónito com a música que se fazia cá em baixo e tenha resolvido ver o que
é que isto ia dar pois a verdade é que durante o fim-de-semana o tempo lá se aguentou
sem chuva, ainda que a forte probabilidade do céu nos cair em cima da cabeça fosse algo
inquietante.
Mas não foi só o santo que terá ficado curioso. A restante feira
despertou subitamente para a presença desses irredutíveis gaiteiros e companhia. Verdade
seja dita: a imagem que se tem do gaiteiro não é propriamente a de um tipo discreto.
Poderia sê-lo, teria é de tocar mais baixinho!

Conhecimento dos intrumentos antigos, na construção de novos |
A tarde de Sábado foi um período livre destinado a que os
participantes conhecessem o espaço da Feira. Antes disso, porém, foram convidados a dar
uma vista de olhos à exposição de Gaitas-de-fole montada no âmbito do Encontro
Nacional de Gaiteiros. O local revelou ser exíguo para receber a visita de tanta gente ao
mesmo tempo mas ainda assim foi possível apreciar vários tipos de madeiras utilizados no
fabrico das gaitas, foles diversos e algumas ferramentas de trabalho. Além disso estavam
expostos exemplares de gaitas tradicionalmente tocadas na França, Bulgária, Suécia,
Irlanda, Escócia, Tunísia, Portugal a Gaita Transmontana ainda está viva
e Galiza.
Depois disto, sim, foi possível viajar por entre a Feira e admirar todas as personagens
vestidas a rigor numa tentativa de nos transportarem para tempos medievais. Espalhados
pelas várias barraquinhas de comida e de artesanato os gaiteiros lá iam viajando por sua
própria conta ora tocando uma modinha, ora saboreando alguns petiscos.
O momento mais importante do evento decorreu na noite de Sábado, para a qual estava
prevista a realização de um espectáculo cujo objectivo era reunir em palco (que acabou
por ser um anfiteatro natural e agradável) todos os grupos convidados e dá-los a ouvir a
quem estivesse disposto a tal. E eram muitas as pessoas interessadas. Dado o elevado
número de gaiteiros participantes cada grupo pôde apenas tocar uma música.

Toni das Gaitas |
Como é normal nestes momentos a organização do evento
agitou-se quando se aproximou a hora de começar o espectáculo. Não era caso para menos,
pois a verdade é que se tratava de perto de uma centena de músicos que teria de entrar
em cena. Havia, por isso, necessidade de concentrar toda a gente num mesmo sítio e ir
chamando os grupos à medida que a sua vez se aproximava.
A preocupação era só uma: não deixar fugir os gaiteiros que
(oh, quantas vezes!) se afastavam mais do que o desejável, esgueirando-se para tomar uma
bicazinha rápida (perdão, cimbalino) ou ir verter águas, o que é justo.
A verdade, contudo, é que o espectáculo também vive destas
pequenas partidas. Estava tudo a postos então, apesar do nervosismo de alguns artistas.
A audiência, de pé e atenta, assistiu a um autêntico recital para gaita e percussão. E
clarinete, já agora. Havia gaitas de todo o tipo Transmontanas, Galegas e
Coimbrãs (idênticas às Galegas em alguns aspectos, mas com características bem
distintas) e o repertório tocado foi vasto e diversificado, sendo que até um
tango se tocou, imaginem! Para quem não esperava, aí está a prova de que a tradição
portuguesa ligada à gaita-de-fole ainda está viva e recomenda-se.
Enfim, depois da tempestade gaiteiril de Sábado veio a bonança, como diz o dito. Mas só
de manhã... Domingo, pela hora do repasto, já a rapaziada estava novamente
agrupada, alegre como sempre. A coisa tremeu ao início da tarde com o aparecimento de
chuva miudinha que ameaçou comprometer o desfile de encerramento. Nada de receios. O
santo também tem direito a uma sesta...

Joaquim Roque, de Torres Vedras e
Emídio Gomes, de Miragaia |
" Olha, olha! São Os Unidos da Paródia!".
Os Zés-Pereiras chegavam de Amarante para se juntarem aos de Braga e assim ajudarem nos
festejos. Os gigantones ou cabeçudos estavam prontos, os roncos soavam já, os dedos dos
gaiteiros animaram-se subitamente e a música apoderou-se de Santa Maria da Feira. A
multidão acotovelava-se para ver o desfile, encabeçado pelos cabeçudos. Atrás iam os
Gaiteiros Nacionais do Porto com vestes aprumadas e dispostos a rigor. O desfile
alongava-se à medida que avançava pelas ruas e cada grupo esforçava-se por se divertir,
o que não foi difícil.
Os gaiteiros transmontanos de Constantim desfilavam macambúzios
mas deram nas vistas pela quantidade de gaitas transmontanas que tocaram em conjunto. E
fizeram-no afinadinhos! Só é pena que o "ti Chico Gato" (o gaiteiro mais
idoso presente no Encontro) não tenha tido forças para tocar nessa tarde, embora tenha
acompanhado o desfile de perto, ainda que devagarinho...
Na cauda do pelotão havia mais Zés-Pereiras: eram os de Braga.
Aí iam eles com os seus gigantones, que não se cansavam de brincar com a populaça.
Rodopiavam numa dança incessante, simulavam quedas sobre as cabeças dos
mirones, os braços voavam livres apanhando quem caminhava desprecavido.
O desfile aproximava-se do fim (e com ele o evento) e ao percorrer-se uma das últimas
ruas era possível avistar o Castelo lá no alto com a sua arquitectura fora do comum, tal
qual o que Santa Maria da Feira pôde presenciar nesse fim-de-semana. Pela tardinha já
só se pensava no regresso a casa (para muitos a viagem ainda era longa) e em comprar algo
para ir depenicando no caminho. Por que não uma fogaça?
A ver vamos o que nos espera para o próximo ano. Uma certeza: as Associações Gaita de
Foles e Lelia Doura esforçar-se-ão por levar o III Encontro Nacional de Gaiteiros a
outras terras portuguesas como forma de mais bem divulgar este instrumento que tem tanto
de mistério como de beleza: a Gaita-de-fole. Assim sendo, estejam atentos... Até lá!
Texto: Francisco Pimenta 
|