Porto e Lisboa
Cesária Évora ao vivo
Afinal: tudo, ainda para fazer...
Coliseus do Porto e Lisboa, dias 16 e 17 de
Outubro 2002
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A propósito da vinda de Cesária Évora ao
Porto e Lisboa, nos dias 16 e 17 de Outubro, publicamos aqui uma entrevista dada ao Jornal
Expresso, pela altura da saída do disco "São Vicente de Fora", o mesmo que
fazia o resumo de uma carreira, afinal com tudo para fazer.
Como todo o cabo-verdiano de raiz, Cesária tem saudades de casa e, lá chegada, sente a
falta de outro lugar. Aos 60 anos, traz-nos um disco brilhante, «São Vicente di Longe»,
que é resumo de carreira. Tudo para fazer, ainda e sempre, as mesmas contas à vida.
Ao contrário do que ela pensa, ainda há quem se lembre dessas noites do Mindelo em que
Cesária Évora cantava, pé descalço e copo na mão, tristes e quentes mornas para um
punhado de admiradores e marinheiros de passagem por São Vicente. Hoje, chamam-lhe a diva
dos pés nus, a «Billie Hollynight» ou até, à conta da idade, a «mamã». Aos 60
anos, Cesária vive a euforia de uma fama com uma dúzia de anos no colo, desde que em
Outubro de 1988 cantou Bia Lulucha no parisiense New Morning Club e a Lusáfrica lançou
«La Diva aux Pieds Nus».
Dois anos depois, aparecia nos escaparates «Distino di Belita», salada de mornas
acústicas e coladeiras eléctricas. Em Junho de 1991, o matutino «Libération» toma-se
de amores por ela, em Outubro sai «Mar Azul», e um ano depois é lançado «Miss
Perfumado».
A teia estava montada. Para todos os efeitos, os feitos de Cesária fazem as vezes da
bandeira de Cabo Verde. Tem passaporte diplomático, o Governo do país ofereceu-lhe uma
moradia («por acaso, até estava mesmo a precisar de uma casa», diz ela), e a cantora
viu-se na contingência de protagonizar um único lamento: o de que o seu sucesso tenha
demorado tanto tempo a chegar.
Cabo Verde de verde só tem o nome. Uns dez meses por ano é seco, poeirento e ventoso. É
lugar de devastadoras secas e de falta de oportunidades de vida digna. A emigração fez
desse acaso um destino. Há uma quarentena de anos, Cesária (ou «Cize», para os amigos)
era a menina querida das estações de rádio do Mindelo, à época o animado perímetro
cultural do país.
Ao lado do clarinetista Luís Morais, fez o percurso dos bares, casou mais do que uma vez,
teve mais do que um filho, tudo coisas de que só a contragosto fala. Até se fazer
quarentona, eram apenas detalhes numa carreira cujos contornos estavam ainda por
deslindar. Em idos da década de 80, chega a Lisboa para um punhado de espectáculos,
trazida por Bana, o gigante da morna, também ele filho do Mindelo e companheiro de B.
Leza, compositor de génio e tio de Cesária.
José da Silva, um voluntarioso agente também conhecido por Djô, organiza-lhe uma curta
digressão europeia. O resto é o que se sabe. Em Fevereiro último, quando a cantora
falou com o Expresso, ainda se escolhiam os temas de «São Vicente di Longe», o novo
disco de originais com arranjos de Jacques Morelenbaum e que a BMG deverá lançar em
princípios de Abril.
Não que Cesária quisesse dar uma alegria particular a Portugal. Veio para ser operada à
vista e a um pé, maleitas que há muito a atormentam. O aparato da conversa raiava o
impressionante: duas funcionárias da editora, o médico pessoal da artista e uma
tradutora-intérprete. Não que a diva não entenda por inteiro o português (diz-se que,
quem sabe se à conta da sua recente universalidade, já só «arranha» a nossa língua),
mas a variedade do seu vocabulário não é grande coisa. Por causa da tradução mais ou
menos simultânea, começava todas as respostas por «diz a ele que...». Eis o resultado.
Disse uma vez que a sua missão é a de ajudar
Cabo Verde. Numa das canções de «São Vicente di Longe» canta que «a tempestade já
virou bonança»... Missão cumprida?
O que eu faço não é bem ajudar Cabo Verde
no geral. Com o pouco que tenho, tento ajudar os meus amigos, quem precisa de mim, na
medida do possível. Tento estar presente.
Isso resume-se a quê? A prestígio
internacional?, a respeitabilidade?, a dinheiro?
Não sei explicar. Ajudo de forma pessoal. Estou lá.
«São Vicente di Longe» é o resumo da vida
de uma cantora de 60 anos agastada por peripécias dolorosas e encantada com a fama?
Ai que você sabe a minha idade!... Não, este disco continua na linha dos outros, é o
mesmo tipo de música, e consigo continuar a ser eu. É, talvez, um pouco mais
internacional, com aqueles duetos com o Pedro Guerra, o Compay Segundo e o Caetano Veloso.
De resto, o disco foi quase todo gravado em Cuba, e a maior parte dos arranjos foram
feitos pelo Jacques Morelenbaum. Os músicos são meus, mas há uma grande contribuição
de artistas estrangeiros.
Toda a gente se dá bem com a sua música...
Música é música, em qualquer lugar do mundo... Mas é verdade que os cubanos e os
brasileiros se dão especialmente bem com o som de Cabo Verde. Usamos o mesmo tipo de
instrumentos e também o mesmo tipo de sentimentos.
Um dia, quando voltar de vez para Cabo Verde,
acaba-se a saudade, acaba-se a nostalgia?
Eu vivo em Cabo Verde, por assim dizer, e essa
saudade que eu canto é um sentimento muito diverso vivido por diferentes pessoas, pelos
cabo-verdianos que estão espalhados pelo mundo. Eles vão para fora, fazem a sua vida
fora, e há sempre aquela saudade da terra... Estão longe sem voltar para trás. É um
sentimento que se vai renovando, porque não somos sedentários. Não paramos nem em Cabo
Verde nem lá fora.
E onde é que a Cesária pára?
Eu sinto saudade quando estou fora, sempre a trabalhar, com vontade de estar em casa.
Aliás, o Governo do meu país até me comprou uma casa...
De cantora de bar no Mindelo passou a vedeta
mundial... Ainda acha que foi tudo um acaso?
Não acredito no destino. Acho que foi uma
coisa que me aconteceu e que estava para acontecer de alguma forma. Não ligo ao destino
nem a esse tipo de coisas. Prefiro que tudo me aconteça naturalmente.
Tinha por tio o compositor B. Leza, o seu pai
tocava violão... Metade do futuro já estava escrito?
Não comecei a cantar com o meu pai... Ele e o meu tio eram muito chegados. Eu costumava
vê-los em criança a tocar juntos, mas em menina nunca me passou pela cabeça que um dia
viria a ser cantora... ou melhor, não foi a família que me empurrou para uma carreira
musical.
Não era o seu sonho?
Não acredito em sonhos. Tinha um amigo que tocava violão, um dia cantei com ele e aqui
estou. Tenho um irmão que toca saxofone numa banda municipal... quer dizer, tocava, que
ele já está velho. Vive em Dakar.
Sucedem-se os discos,
há compilações do «melhor de Cesária», e ainda ninguém sabe que antologia melhor a
representaria se a Cesária pudesse escolher os temas...
Isso é um trabalho conjunto entre o meu produtor e eu. Ouvimos as músicas e escolhemos o
que há de melhor para eu cantar. Mas há muitas vezes músicas que não me agradam, que
não têm sentimento e não me interessa transmitir. Prefiro não as cantar.
Isso estende-se também
aos espectáculos ao vivo?
Há um bom, gravado no Olympia de Paris, na altura do «Miss Perfumado», mas há outros
em estúdio que correram bem. É-me um bocado indiferente. O meu preferido é «Mar
Azul», que tem músicas do meu tio B. Leza que eu queria gravar há muito tempo.
Há imensas histórias
sobre noitadas suas em Lisboa... Ainda arranja tempo para as fazer quando cá vem?
Já não venho em descanso e
nunca venho de férias. Agora estou cá para exames médicos e cirurgias de correcção
aos olhos e a um pé.
Sempre foi uma fã de
Amália... Acha que o fado é a morna que nós nunca soubemos fazer?
Não são irmãos, o fado e a morna, mas têm um grau de parentesco. O sentimento é o
mesmo, só que um é cantado em crioulo e o outro em português. Estive para ver a Amália
em 1954, quando ela passou por Cabo Verde a caminho do Brasil, mas não consegui. Sou fã
dela desde menina, tenho discos dela, mas nunca a vi...
Ela era sua fã?
Não faço ideia.
No meio desta euforia
de entrevistas, digressões e concertos, é muito difícil a uma mulher como a Cesária
manter-se igual a si própria?
Sempre fui a mesma pessoa. De resto, se me tiram muitas fotografias, os rolos estragam-se
(risos). Tenho admiradores em todo o lado e nenhuma razão de queixa.
Sente-se confortável
com o rótulo «world music»?
O que é isso?
Até para encontrar os
seus discos é preciso procurar na secção da «world music»...
Fazem-me sempre essa pergunta nas entrevistas e ainda hoje não sei o que isso é. Percebo
que muita gente tenha necessidade de rótulos, mas essa coisa da «world music» foi uma
palavra inventada e que eu não sei definir. Nem me interessa. Se alguém se sente mais
confortável em meter-me nessa prateleira, ar no estrangeiro, fiz um disco chamado «Miss
Perfumado» que foi o pontapé de saída... e é tudo.
Na França, ninguém a
resume a isso. Há uma diferença de públicos se canta num país com um passado
colonialista ou também é indiferente?
A França é o meu segundo país, porque foi
aí que o meu êxito internacional começou. Foram os franceses os primeiros a apreciar a
minha voz e foi de lá que vieram os primeiros fãs.
Era uma vida bem
diferente das noites do Mindelo...
Não vou falar das pessoas que costumavam frequentar os sítios onde eu cantava. Cantei em
casas particulares, em navios de guerra, até no navio-escola «Sagres»... mas essa gente
já não deve estar viva.
E os admiradores
portugueses vivos?
Talvez tenha fãs por cá... Acho que sim, mas não tenho a certeza.
Elogia-se a excelência
dos versos que canta. Não a incomoda que por esse mundo fora haja tão pouca gente a
perceber o crioulo?É verdade que na maioria dos países ninguém percebe uma palavra do
que eu canto. Nem os portugueses entendem o que eu estou a dizer. Na Austrália, nos
Estados Unidos, no Japão, eles não percebem uma palavra, mas compram o disco, pedem
autógrafos, vão aos espectáculos e querem estar ao pé de mim... Isso deve querer dizer
alguma coisa, não?
Mesmo que só percebam
metade?
Se percebem o sentimento, percebem a música. Eu também não entendo português
suficiente para perceber um fado, mas gosto de ouvir cantar a Amália.
Os seus filhos também
estão ligados à música?
Acompanham a carreira da mãe e gostam do meu sucesso. Estão comigo desde o tempo em que
eu era pobre.
Mas não cantam?
Há um que canta umas coisas depois de beber dois uísques... Mas se ele se quiser lançar
na música vai ter de o fazer sozinho.
Sim, até porque a
Cesária deixou de beber...
Deixei o álcool, mas não sei se um dia destes vou começar de novo (risos).
