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Cesária Évora

 

 

in Jornal Expresso 17 de Março de 2001
Entrevista de JOSÉ MENDES

 

Porto e Lisboa
Cesária Évora ao vivo
Afinal: tudo, ainda para fazer...
Coliseus do Porto e Lisboa, dias 16 e 17 de Outubro 2002
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A propósito da vinda de Cesária Évora ao Porto e Lisboa, nos dias 16 e 17 de Outubro, publicamos aqui uma entrevista dada ao Jornal Expresso, pela altura da saída do disco "São Vicente de Fora", o mesmo que fazia o resumo de uma carreira, afinal com tudo para fazer.

Como todo o cabo-verdiano de raiz, Cesária tem saudades de casa e, lá chegada, sente a falta de outro lugar. Aos 60 anos, traz-nos um disco brilhante, «São Vicente di Longe», que é resumo de carreira. Tudo para fazer, ainda e sempre, as mesmas contas à vida.

Ao contrário do que ela pensa, ainda há quem se lembre dessas noites do Mindelo em que Cesária Évora cantava, pé descalço e copo na mão, tristes e quentes mornas para um punhado de admiradores e marinheiros de passagem por São Vicente. Hoje, chamam-lhe a diva dos pés nus, a «Billie Hollynight» ou até, à conta da idade, a «mamã». Aos 60 anos, Cesária vive a euforia de uma fama com uma dúzia de anos no colo, desde que em Outubro de 1988 cantou Bia Lulucha no parisiense New Morning Club e a Lusáfrica lançou «La Diva aux Pieds Nus».

Dois anos depois, aparecia nos escaparates «Distino di Belita», salada de mornas acústicas e coladeiras eléctricas. Em Junho de 1991, o matutino «Libération» toma-se de amores por ela, em Outubro sai «Mar Azul», e um ano depois é lançado «Miss Perfumado».

A teia estava montada. Para todos os efeitos, os feitos de Cesária fazem as vezes da bandeira de Cabo Verde. Tem passaporte diplomático, o Governo do país ofereceu-lhe uma moradia («por acaso, até estava mesmo a precisar de uma casa», diz ela), e a cantora viu-se na contingência de protagonizar um único lamento: o de que o seu sucesso tenha demorado tanto tempo a chegar.

Cabo Verde de verde só tem o nome. Uns dez meses por ano é seco, poeirento e ventoso. É lugar de devastadoras secas e de falta de oportunidades de vida digna. A emigração fez desse acaso um destino. Há uma quarentena de anos, Cesária (ou «Cize», para os amigos) era a menina querida das estações de rádio do Mindelo, à época o animado perímetro cultural do país.

Ao lado do clarinetista Luís Morais, fez o percurso dos bares, casou mais do que uma vez, teve mais do que um filho, tudo coisas de que só a contragosto fala. Até se fazer quarentona, eram apenas detalhes numa carreira cujos contornos estavam ainda por deslindar. Em idos da década de 80, chega a Lisboa para um punhado de espectáculos, trazida por Bana, o gigante da morna, também ele filho do Mindelo e companheiro de B. Leza, compositor de génio e tio de Cesária.

José da Silva, um voluntarioso agente também conhecido por Djô, organiza-lhe uma curta digressão europeia. O resto é o que se sabe. Em Fevereiro último, quando a cantora falou com o Expresso, ainda se escolhiam os temas de «São Vicente di Longe», o novo disco de originais com arranjos de Jacques Morelenbaum e que a BMG deverá lançar em princípios de Abril.

Não que Cesária quisesse dar uma alegria particular a Portugal. Veio para ser operada à vista e a um pé, maleitas que há muito a atormentam. O aparato da conversa raiava o impressionante: duas funcionárias da editora, o médico pessoal da artista e uma tradutora-intérprete. Não que a diva não entenda por inteiro o português (diz-se que, quem sabe se à conta da sua recente universalidade, já só «arranha» a nossa língua), mas a variedade do seu vocabulário não é grande coisa. Por causa da tradução mais ou menos simultânea, começava todas as respostas por «diz a ele que...». Eis o resultado.

Disse uma vez que a sua missão é a de ajudar Cabo Verde. Numa das canções de «São Vicente di Longe» canta que «a tempestade já virou bonança»... Missão cumprida?
O que eu faço não é bem ajudar Cabo Verde no geral. Com o pouco que tenho, tento ajudar os meus amigos, quem precisa de mim, na medida do possível. Tento estar presente.

Isso resume-se a quê? A prestígio internacional?, a respeitabilidade?, a dinheiro?
Não sei explicar. Ajudo de forma pessoal. Estou lá.

«São Vicente di Longe» é o resumo da vida de uma cantora de 60 anos agastada por peripécias dolorosas e encantada com a fama?
Ai que você sabe a minha idade!... Não, este disco continua na linha dos outros, é o mesmo tipo de música, e consigo continuar a ser eu. É, talvez, um pouco mais internacional, com aqueles duetos com o Pedro Guerra, o Compay Segundo e o Caetano Veloso. De resto, o disco foi quase todo gravado em Cuba, e a maior parte dos arranjos foram feitos pelo Jacques Morelenbaum. Os músicos são meus, mas há uma grande contribuição de artistas estrangeiros.

Toda a gente se dá bem com a sua música...
Música é música, em qualquer lugar do mundo... Mas é verdade que os cubanos e os brasileiros se dão especialmente bem com o som de Cabo Verde. Usamos o mesmo tipo de instrumentos e também o mesmo tipo de sentimentos.

Um dia, quando voltar de vez para Cabo Verde, acaba-se a saudade, acaba-se a nostalgia?
Eu vivo em Cabo Verde, por assim dizer, e essa saudade que eu canto é um sentimento muito diverso vivido por diferentes pessoas, pelos cabo-verdianos que estão espalhados pelo mundo. Eles vão para fora, fazem a sua vida fora, e há sempre aquela saudade da terra... Estão longe sem voltar para trás. É um sentimento que se vai renovando, porque não somos sedentários. Não paramos nem em Cabo Verde nem lá fora.

E onde é que a Cesária pára?
Eu sinto saudade quando estou fora, sempre a trabalhar, com vontade de estar em casa. Aliás, o Governo do meu país até me comprou uma casa...

De cantora de bar no Mindelo passou a vedeta mundial... Ainda acha que foi tudo um acaso?
Não acredito no destino. Acho que foi uma coisa que me aconteceu e que estava para acontecer de alguma forma. Não ligo ao destino nem a esse tipo de coisas. Prefiro que tudo me aconteça naturalmente.

Tinha por tio o compositor B. Leza, o seu pai tocava violão... Metade do futuro já estava escrito?
Não comecei a cantar com o meu pai... Ele e o meu tio eram muito chegados. Eu costumava vê-los em criança a tocar juntos, mas em menina nunca me passou pela cabeça que um dia viria a ser cantora... ou melhor, não foi a família que me empurrou para uma carreira musical.

Não era o seu sonho?
Não acredito em sonhos. Tinha um amigo que tocava violão, um dia cantei com ele e aqui estou. Tenho um irmão que toca saxofone numa banda municipal... quer dizer, tocava, que ele já está velho. Vive em Dakar.

Sucedem-se os discos, há compilações do «melhor de Cesária», e ainda ninguém sabe que antologia melhor a representaria se a Cesária pudesse escolher os temas...
Isso é um trabalho conjunto entre o meu produtor e eu. Ouvimos as músicas e escolhemos o que há de melhor para eu cantar. Mas há muitas vezes músicas que não me agradam, que não têm sentimento e não me interessa transmitir. Prefiro não as cantar.

Isso estende-se também aos espectáculos ao vivo?
Há um bom, gravado no Olympia de Paris, na altura do «Miss Perfumado», mas há outros em estúdio que correram bem. É-me um bocado indiferente. O meu preferido é «Mar Azul», que tem músicas do meu tio B. Leza que eu queria gravar há muito tempo.

Há imensas histórias sobre noitadas suas em Lisboa... Ainda arranja tempo para as fazer quando cá vem?
Já não venho em descanso e nunca venho de férias. Agora estou cá para exames médicos e cirurgias de correcção aos olhos e a um pé.

Sempre foi uma fã de Amália... Acha que o fado é a morna que nós nunca soubemos fazer?
Não são irmãos, o fado e a morna, mas têm um grau de parentesco. O sentimento é o mesmo, só que um é cantado em crioulo e o outro em português. Estive para ver a Amália em 1954, quando ela passou por Cabo Verde a caminho do Brasil, mas não consegui. Sou fã dela desde menina, tenho discos dela, mas nunca a vi...

Ela era sua fã?
Não faço ideia.

No meio desta euforia de entrevistas, digressões e concertos, é muito difícil a uma mulher como a Cesária manter-se igual a si própria?
Sempre fui a mesma pessoa. De resto, se me tiram muitas fotografias, os rolos estragam-se (risos). Tenho admiradores em todo o lado e nenhuma razão de queixa.

Sente-se confortável com o rótulo «world music»?
O que é isso?

Até para encontrar os seus discos é preciso procurar na secção da «world music»...
Fazem-me sempre essa pergunta nas entrevistas e ainda hoje não sei o que isso é. Percebo que muita gente tenha necessidade de rótulos, mas essa coisa da «world music» foi uma palavra inventada e que eu não sei definir. Nem me interessa. Se alguém se sente mais confortável em meter-me nessa prateleira, ar no estrangeiro, fiz um disco chamado «Miss Perfumado» que foi o pontapé de saída... e é tudo.

Na França, ninguém a resume a isso. Há uma diferença de públicos se canta num país com um passado colonialista ou também é indiferente?
A França é o meu segundo país, porque foi aí que o meu êxito internacional começou. Foram os franceses os primeiros a apreciar a minha voz e foi de lá que vieram os primeiros fãs.

Era uma vida bem diferente das noites do Mindelo...
Não vou falar das pessoas que costumavam frequentar os sítios onde eu cantava. Cantei em casas particulares, em navios de guerra, até no navio-escola «Sagres»... mas essa gente já não deve estar viva.

E os admiradores portugueses vivos?
Talvez tenha fãs por cá... Acho que sim, mas não tenho a certeza.

Elogia-se a excelência dos versos que canta. Não a incomoda que por esse mundo fora haja tão pouca gente a perceber o crioulo?É verdade que na maioria dos países ninguém percebe uma palavra do que eu canto. Nem os portugueses entendem o que eu estou a dizer. Na Austrália, nos Estados Unidos, no Japão, eles não percebem uma palavra, mas compram o disco, pedem autógrafos, vão aos espectáculos e querem estar ao pé de mim... Isso deve querer dizer alguma coisa, não?

Mesmo que só percebam metade?
Se percebem o sentimento, percebem a música. Eu também não entendo português suficiente para perceber um fado, mas gosto de ouvir cantar a Amália.

Os seus filhos também estão ligados à música?
Acompanham a carreira da mãe e gostam do meu sucesso. Estão comigo desde o tempo em que eu era pobre.

Mas não cantam?
Há um que canta umas coisas depois de beber dois uísques... Mas se ele se quiser lançar na música vai ter de o fazer sozinho.

Sim, até porque a Cesária deixou de beber...
Deixei o álcool, mas não sei se um dia destes vou começar de novo (risos).
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