Balbarda
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Programa
Dia 2 de Julho, 21:30h
Imbolc
Portugal
Dia 2 de Julho, 23:00h
Xistra de Coruxo
Galiza
Dia 3 de Julho, 21:30h
Balbarda
Castela / Leão
Dia 3 de Julho, 23:00h
Xuacu Amieva
Astúrias
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Vizela
III Interceltico de Vizela
Vizela, dias 2 e 3 de Julho de
2004
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Sons da terra organiza pela 3ª vez o Festival Intercéltico de
Vizela, trazendo este ano os portugueses Imbolc, os Galegos Sistra de Coruxo, Balbarda de
Castela/Leão e Xacu Amieva das Astúrias. Dias 2 e 3 de Julho.
O programa do Intercéltico de Vizela aposta sobretudo na descoberta de novos
valores ou, pelo menos, de valores pouco conhecidos entre nós. Neste caso, o cartaz
aposta nas músicas da península ibérica com grupos vindos da Galiza (Xistra de Coruxo);
um grupo das Astúrias (Xuacu Amieva); outor de Castela/Leão (Balbarda) e claro, de
Portugal (Imbolc) - neste caso os 2ºs classificados no Arribas Folk, um concurso
organizado no ano passado pela Sons da Terra.
Exactamente para dar a conhecer o percuro destes projectos, deixamos aqui informação
mais extensa sobre as respectivas biografias - que permitem confirmar o enorme interesse
que este festival alternativo pode dispertar nos apreciadores das músicas de raiz
tradicional.
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Dia 2 de Julho, 21:30h
Imbolc
Portugal
O movimento em torna da
música folk designação cada vez mais abrangente mas mantendo como referencial
identificador um padrão de identidade que radica nas chamadas músicas de
raiz, quer como inspiração directa quer como elemento de sensibilização - tem
vindo a conhecer, sobretudo a partir da última década do século passado, a
incorporação nas suas fileiras de jovens músicos com horizontes musicais bastante
alargados e sensibilidades culturais multiexpressivas. Se a música tradicional portuguesa
foi, entre os anos 60 e os anos 80 do século XX o mais poderoso referencial para a maior
parte dos processos (re)criativos da folk portuguesa não em regime de exclusivo,
pois cruzavam-se influências diversas, sobretudo provenientes das áreas céltica e
anglo-saxónica e, em bem menor escala, das latitudes espanhola e francesa a
verdade é que, na actualidade e mercê de distintos factores, se assiste a uma
multiplicidade de fontes e/ou influências, permanecendo, porém um modelo de
identificação e de caracterização alicerçada na diversidade expressiva da música
tradicional e popular portuguesa.
No entanto, estes
projectos coexistem com propostas menos marcadas pelo nosso património musical
tradicional (ou de base tradicional), por vezes muito mais próximas das áreas
expressivas da (indevidamente) designada world music. O que, em boa verdade, acaba por
reflectir o carácter universalista das músicas de raiz, sendo certo que, uma vez mais e
tal como sempre sucedeu, aos mais diversos e distintos níveis, o tempo acabará por
clarificar as situações menos compreensíveis ou explícitas de tais processos de
experimentação.
O número crescente de
festivais folk não tanto em Portugal mas, de um modo geral, por toda a Europa
Ocidental e Oriental e a do mesmo modo crescente divulgação de obras
fonográficas, a par do aparecimento de alguma imprensa da especialidade com créditos
firmados, foram contribuindo, de forma decisiva, para a criação de públicos (não raro
transversais em termos de gostos musicais ou sensibilidade para escutar diferentes
géneros musicais) para a folk e para as músicas de raiz, que são hoje o principal
alicerce referencial do movimento. E, neste contexto de complexas interacções, importa
referenciar, em tempos de acentuada globalização (que, em si, não deve ser considerada
negativa, sendo-o, porém, quando determina processos de padronização e de
homogeneização), a procura e reforço de identidades culturais como forma de
enriquecimento (pela via da diversidade) do património cultural global, tendo por base
uma de todo irrecusável afirmação do nosso direito à diferença.
Um Encontro de Influências Diversas
Criados em inícios de 2002, os Imbolc cujo nome nos remete para as festas
célticas em louvor da luz e da vida, anunciando a primavera assumiram desde logo o
fascínio pela diversidade de forma inequívoca, conjugando as composições próprias (de
carácter introdutório) com a recriação de temas portugueses, galegos, bretões,
franceses, irlandeses e escoceses. Porém, não é um grupo que se consagre pura e
simplesmente à recriação, antes procurando integrar diferentes sensibilidades e
distintas experiências.
Trata-se de um projecto
pensado para reflectir atitudes e sensibilidades, recusando, porém, ser a resultante
directa do somatório de experiências pessoais, determinadas pelo percurso individual de
cada um dos seus elementos. Imbolc procura, acima de tudo, definir-se a partir de ideias a
concretizar graças a tais experiências, sem perder nunca as referências e os objectivos
definidos previamente. Apraz-nos registar este facto pois sobejam, infelizmente, os
exemplos de esforços que se perderam por manifesta incapacidade de definição de um
projecto catalizador, de coesão de expressões/vontades artísticas e culturais. Através
das palavras de João madeira, contrabaixista dos Imbolc, apercebemo-nos precisamente
deste factor de integração de diversidades a partir de experiências pessoais.
Arribas Folk
Em 20 de Dezembro de 2003, os Imbolc participaram na sessão final do Arribas Folk
I Concurso Nacional de Música Folk, realizado em Sendim, Miranda do Douro, tendo ficado
classificados em segundo lugar (o concurso foi vencido pelo grupo algarvio Marenostrum).
O grupo tinha sido
seleccionado por um júri nacional tendo por base uma maqueta contendo os seguintes temas
(que ilustram bem a diversidade expressiva da formação): Dança dos Camponeses (Carlos
Paredes), Bransle de Chevaux (tradicional francês), Butterfly/Tourdion (temas
tradicionais ingleses), Lord Mayo/Brian Borus March (tradicionais irlandeses) e The
Foggy Dew (um verdadeiro clássico da música tradicional esmeraldina).
A actuação dos Imbolc
no palco sendinês do I Arribas Folk constitui uma verdadeira surpresa, denotando já uma
invulgar coesão instrumental, sendo o repertório escolhido assaz expressivo da
diversidade de influências/fontes do projecto do grupo: Butterfly/Tourdion (tradicionais
ingleses), Morrisons Jig (tema irlandês), The Tryst (tema escocês), Lord
Mayo/Brian Borus March (tradicionais irlandeses) e Dança da Ursa (tradicional
belga).
Alexandre Gabriel harpa céltica, guitarras folk e clássica
Gonçalo Bordado bodhran, gaita de foles galega, percussões
Gonçalo do Carmo guitarras clássica e portuguesa, flauta, gaitas de foles
João Madeira contrabaixo
Ricardo Vieira flautas, gaita de foles galega, whistles, percussões
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Dia 2 de Julho, 23:00h
Xistra de Coruxo
Galiza
Xistra de Coruxo pretende
converter-se numa experiência musical com a única intenção de divulgar as melodias que
outrora fizeram parte do divertimento e do sentir das gentes do sul da província de
Pontevedra. Melodias que se podem encontrar no arquivo sonoro do Etnográfico A
Buxaina, aprendidas dos intérpretes da altura e que foram assimiladas pelo grupo
trazendo uma dose de actualização na medida em que algumas delas se encontravam em vias
de desaparecimento. Por outro lado, Xistra de Coruxo não se pode qualificar como sendo um
grupo folk se por música folk se entender a que resulta da inovação e da fusão de sons
tradicionais com os actuais. Mais do que procurar retratar fielmente os ritmos que se
interpretavam noutros tempos, Xistra de Coruxo tenta revitalizá-los num contexto que já
não é o mesmo.
Estávamos em 1995 e acabava de ser publicado o álbum Se
Beillas Arrente Coidado Cós Terróns, revelador de uma formação de música popular
galega publicamente apresentada em 1988 e cujo trabalho se tinha iniciado acompanhando o
grupo de danças tradicionais Etnográfico A Buxaina, sob a forma de um
quarteto alternativo aos populares grupos de baile galegos (com um repertório que então
consideravam não dever ser integrado num projecto puramente etnográfico na medida em que
não se tratava de música intrinsecamente tradicional). O texto incluído no referido
álbum reflecte de forma assaz esclarecedora a postura do grupo, cujo projecto de
intervenção tem vindo a revestir importantes funções pedagógicas, sem todavia
menosprezar a componente lúdica e convivente da sua música. Eram seus obreiros António
Piñeiro (acordeão e bombo), Xoán Carlos Vasquez (clarinetes, gaita e voz), Xurxo
Fernández Santomé (gaita, flautim e percussões), Pablo González (percussões e voz),
Xoán Comesaña (tamboril, caixa e voz), Xerardo Santomé (gaita, percussão e voz) e Rosa
Comesaña (flautim). Como grupo de música tradicional galega, Xistra de Coruxo assumiu a
forma de quinteto (duas gaitas e percussões), que acompanhava o baile e por vezes actuava
por sua conta interpretando peças e melodias aprendidas nas aldeias galegas (muiñeiras,
jotas, pasacorredoiras, marchiñas de reis
).
Quanto mais se aprendia com os velhos gaiteiros galegos
mais se registava a inclusão de novos instrumentos que não são tradicionalmente galegos
mas que também foram utilizados por eles no seu tempo: flautim, clarinete
para
interpretar melodias que por vezes não pertenciam ao Cancioneiro Tradicional Galego. É
nessa altura que o grupo decide tornar-se totalmente independente.
Um Grupo de Música Popular Galega
Esta decisão coincide com a passagem
dos Xistra de Coruxo a grupo de música popular galega, aumentando o número de
componentes (que chegam a ser de oito) com a inclusão do acordeão.
Havia que ocupar um espaço em aberto na música do nosso
país deixado para trás pelos grupos folk que foram abandonando as percussões e as
melodias próprias da Galiza. Tomando como referência a fértil existência de gaiteiros
no Sul da Província de Pontevedra que formavam então parte dos grupos de gaitas e das
murgas, Xistra de Coruxo decidiu basear o seu novo repertório nos ritmos e nas melodias
provenientes de outros povos estrangeiros e que entraram na nossa comunidade em finais do
século XIX e princípios do século XX. Ritmos que foram assimilados e popularizados
pelos nossos antepassados: rumbas, sambas, mazurcas, polcas, etc., sem todavia
abandonarmos as muiñeiras, jotas e demais temas também tocados pelos gaiteiros.
Para Xistra de Coruxo, o primeiro trabalho discográfico
publicado não podia deixar de ser um verdadeiro testemunho de um projecto amadurecido
durante muitos anos de trabalho de campo e de actuações, fornecendo justamente uma
amostra de todo um repertório burilado em estreito contacto e comunhão com as pessoas.
Segundo o grupo, estava muito divulgada a ideia de que na
Galiza só se dançava tradicionalmente a muiñeira e pouco mais, sendo certo que havia
toda uma grande variedade de bailes, cujas origens se situam fora da geografia galega
tais como passodobles, rumbas, sambas, mazurcas
-, que animavam os bailes
tradicionais galegos. E insistiam em inscreverem o seu trabalho numa aposta pela
autenticidade dos grupos de música popular (fosse qual fosse a sua estrutura formativa e
grau de conhecimentos, desde os gaiteiros até às bandas de música, passando pelos
quartetos e pandeireteiras) e faziam questão de deixar bem expressa a sua admiração
pelas chamadas murgas (musicalmente presentes nos finais do século XIX e que num vulgar
dicionário refere um grupo de músicos ordinários).
A Folk Galego-Minhota
Em 1997, Xistra Coruxo publicou um
segundo trabalho discográfico, intitulado Adicado
, através do qual podemos
constatar uma mudança qualitativa em termos de elaboração dos temas por parte do grupo
(que registou as saídas de Xoán Carlos Vázquez e de Rosa Comesaña, tendo entrado
Isabel Fernández Alonso), sem todavia pôr em causa o projecto inicial.
No ano de 2000, Xistra de Coruxo apresentou uma proposta que
foi uma verdadeira surpresa, pela irreverência da proposta que resulta do próprio
título do disco: Xistralia: República Independente. Trata-se de um trabalho que prolonga
aquele olhar para o sul da Galiza, transpondo o Rio Minho e chegando até terras de
Barcelos. De facto, se logo no primeiro tema se dá conta do amor entre um galego e uma
portuguesa que bem podiam representar o Sul da Galiza e o Norte de Portugal, que apesar de
estarem politicamente separados se sentem mutuamente atraídos e condenados a sobreviver
em conjunto (num tema que conta com a colaboração de Augusto Gonçalves, o popular
Canário, na viola braguesa, e de Maria do Carmo Ferreira, na voz, ambos elementos do
grupo Cantares do Minho).
Mas não se ficam por aqui as incursões dos Xistra de
Coruxo em terras minhotas (afinal uma boa parte delas integradas na república
independente por eles fantasiada), dado que são diversas as peças incluídas cujas
origens se repartem por Afife (onde o popular tocador de concertina Barros Lopes ensinou
ao grupo uma muiñeira minhota, Toca la Gaita), Arcos de Valdevez (com a inclusão de um
Bira, dotado de versos em redondilha menor) e outras terras do Alto Minho (com passagem
pelos ritmos dos Zés-Pereiras e dos populares tocadores de concertina).
De referir que a formação dos Xistra de Coruxo
apresentava, nesta altura, algumas alterações, sendo os seus elementos integrantes os
seguintes: Xerardo Santomé (gaita, cordas, voz e percussões), Xurxo Santomé (gaita,
pito, voz e percussões), Antón Segade (acordeão e voz), Xoán Comesaña (voz e
percussões), Chabi Alonso (clarinete e voz) e André Veloso (gaita e pito). No entanto,
em 2003, aquando da edição do último trabalho discográfico do grupo, intitulado Tres
Nun, os últimos três elementos atrás referidos foram substituídos por: Patrícia Cela
(percussões) e Fernando Abreu (clarinetes e voz).
Tres Nun remete-nos para o mesmo universo expressivo que foi
apresentado no disco anterior, com um repertório proveniente do sul galego e do norte
minhoto, renovando-se os propósitos dos Xistra de Coruxo: interpretar e fazer evoluir a
música popular. E corresponde a três modos de entender a tradição musical.
Antón Segade acordeão e voz
Fernando Abreu clarinetes e voz
Pablo Alonso percussões e voz
Patrícia Cela percussões
Xerardo Santomé gaita, cordas, voz e percussões
Xurxo Santomé gaita, pito, voz e percussõe
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Dia 3 de Julho, 21:30h
Balbarda
Castela / Leão
Durante a expansão muçulmana nos alvores do século VIII,
as populações deslocaram-se para as zonas mais propícias à sua defesa ao longo da
cordilheira cantábrica, levando consigo os seus rebanhos e os seus haveres, os seus
costumes e a sua cultura. Até ao ano 800 deu-se esse repovoamento singular de homens
livres, num território que com o decurso dos tempos acabaria por ser designado de
Castela. Ao saírem das montanhas para penetrarem na planície converteram-se em
foramontanos (de fora das montanhas): exierunt foras montani de Malacoria et venerunt ad
Castella
O foramontano arreia as vacas tudancas e avança com a
enxada ao ombro e a espada na cintura: luta com uma mão e com a outra cultiva o campo e
guarda a sua casa. Com a incerteza do amanhã e a aproximação do ano mil com todos os
seus temores. Sai do vale estreito e húmido para a meseta e para o páramo,
convertendo-se num valente impulsionado pelo seu próprio instinto de liberdade.
Eis, portanto, porque voltaram os repovoadores renovados
pela influência montanhesa, reflectida nas toponímias da meseta, nas festas e, de um
modo geral, na cultura e nos costumes destes homens e mulheres.
Assumir a Essência das Origens
Uma primeira reflexão determinada
pelo aparecimento de um grupo como Balbarda remete-nos, desde logo, para a extraordinária
capacidade de renovação da frente jovem da expressão folk por terras de Castela, numa
prova inequívoca de que as músicas de raiz são hoje um poderoso elemento para a busca
de uma identidade cultural que possa constituir uma resposta aos mecanismos poderosos de
uma homogeneização veiculada por uma tendencialmente dominadora vertente da
globalização. E, de seguida, apraz-nos registar o facto de inegável relevância
em termos (re)criativos de se assumir o legado tradicional como padrão
referencial, sem temer avançar para os caminhos sem dúvida sedutores (e ainda bem!) da
renovação imposta pelo confronto com a modernidade: trata-se, afinal, de um processo de
interacção entre o passado e o futuro que sempre se verificou, embora com distintas
dinâmicas, ao longo dos tempos, negando em absoluto o pretenso estatismo da tradição (o
que seria um absurdo, ou seja, a negação da própria tradição). Importa ter bem
presente que a tradição, para existir, precisa do presente é que é pensada. O grupo
assume este confronto criativo entre a força identificadora da tradição e a energia
renovadora da modernidade de forme muito clara.
La Ruta de los Foramontanos começa logo por ser assumido pelo grupo como algo em que
acreditam de tal maneira e com tamanho entusiasmo que nem sequer perderam tempo em
arranjar editora: o próprio grupo avançou com a respectiva edição, concretizada em
2002 (três anos depois da constituição de Balbarda e com uma já razoável rodagem em
termos de concertos ao vivo) e que contou com uma recepção francamente entusiástica por
parte da crítica da especialidade. Na prestigiada World Music, por exemplo, pode ler-se
que a música curva-se, abre os braços à criatividade, perfuma o ar com novas
interpretações acústicas (
) alcançando magnitudes inimagináveis através de um
amplo cortejo com os ritmos, os instrumentos e a voz; e na influente Interfolk
afirmou-se que estes músicos souberam ler o fundo da sua herança e não ficar-se pela
simples imitação ou aparência, para encontrar o espírito e a força do repertório
castelhano escolhido, lustrando o seu lado mais selvagem e emotivo, mas sem cair na
exploração fácil
Um Estilo Bem Aprendido
O grupo fez questão de assumir, de
forma muito clara e sem margem para equívocos, as suas influências, entre as quais se
destaca, natural e não deliberadamente, a do trabalho, a todos os títulos referencial,
do grupo La Musgaña, que nos ensinou, sem querer, um caminho a seguir. Mas sem esquecer o
precioso legado transmitido pelos músicos tradicionais: graças ao labor de
etnomusicólogos e pesquisadores como Angel Carril (fundador do centro de Cultura
Tradicional de Salamanca) ou Alan Lomax (norte-americano que efectuou extensivo trabalho
de campo por toda a Espanha), ambos falecidos em 2002 e muito justamente homenageados
pelos músicos de Balbarda.
A formação original dos Balbarda é a seguinte: Ana
Alcaide (violino, voz); Javier Monteagudo (guitarras acústicas, alaúde, cistre,
castanholas, coros); Jota Martinez (sanfona, bodhran, adufe, riq, pandeiretas, voz); e
Xurxo Ordoñez (gaita de foles, gaita charra, gaita serrana, tamboril, flauta transversal,
requinta). Foram estes os obreiros de La Ruta de los Foramontanos, tendo recentemente
entrado para o grupo Robbie Jones (darbouka, pandeireta, pandeiros, cajón, caixa). Este
disco a todos os títulos soberbo e verdadeiramente indispensável divide-se
entre os temas tradicionais (Charracoleando, conjunto de temas serranos de Salamanca, ao
ritmo do fandango e do picao, recolhidos por Manuel Garcia Matos; Al Histe, agrupamento de
dois espécimes, baile de las culadas e pasodoble, provenientes da área alistana;
Piedrahita, uma dança processional; Vettonia, integrando duas charradas salmantinas;
Almapicada, ligando uma jota galega de Malpica aos sons do sul castelhano; Pasacalles de
la Frontera, provenientes da Sierra de Francia salmantina e das Hurdes estremenhas;
Malacoria, agrupando duas danças castelhanas burgalesas e sorianas, esta numa recolha de
Kurt Schindler do repertório das danzas de palos) e os temas compostos pelo próprio
grupo (Jota de Albarda, Arroyo Culebro e A Poza da Ferida).
A guitarra traça sinuosas melodias nos seus registos
graves, enredando as harmonias entretecidas com as percussões ao estilo dos pioneiros dos
novos sons e possibilidades folk, o mestre inglês John Renbourn e o seu legado The
Pentangle. Por sua vez, a afinação aberta usada permite abrir o leque de possibilidades
e o brilho dos acompanhamentos. E, noutras ocasiões, o trabalho quase percussivo sobre as
cordas evoca, de certa maneira, o peculiar estilo de Carlos Beceiro (La Musgaña) quando
tinha de defender um tema tradicional só com o baixo eléctrico. E quanto ao violino, o
toque é áspero e contundente, bem enquadrado com o som da sanfona. Sobre tudo isto, as
gaitas de fole e as flautas caminham com a segurança do estilo bem aprendido.
Balbarda é já uma das mais promissoras certezas da frente
jovem da folk castelhana. Que o digam todos quantos já tiveram a oportunidade de os
escutar no excelente trabalho discográfico de estreia, la Ruta de los Foramontanos, ou de
assistir aos seus concertos.
Ana Alcaide
violino e voz
Javier Monteagudo guitarras, alaúde, cistre e castanholas
Jota Martinez sanfona, bodhran, adufe, riq, pandeiretas e voz
Xurxo Ordoñez gaita de foles, gaita charra, gaita serrana, flauta transversal e
requinta
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Dia 3 de Julho, 23:00h
Xuacu Amieva
Astúrias
Xuacu Amieva é natural
da aldeia de El Mazucu, situada na área montanhosa dos Picos da Europa, nas Astúrias, o
que foi determinante para uma infância vivida em plena comunhão com a natureza, que
ficou a marcar o seu gosto profundo pelos ambientes campestres e bucólicos, propiciadores
da reflexão introspectiva. Um gosto que permaneceu mesmo depois de se ter mudado, com
nove anos de idade, para a cidade de Oviedo, da qual não mais saiu em termos de
residência. Graças aos estímulos e incentivos recebidos do popular contador de
histórias Millo el del Nilo, o jovem Joaquin Amieva ingressou num grupo de baile
tradicional, Urogallos, no seio do qual iniciou a sua aprendizagem de tudo quanto se
relaciona com o vasto mundo do folclore asturiano. E foi precisamente no seio deste
colectivo etnográfico que teve a oportunidade de conhecer gaiteiros como Tito de los
Orches ou Jesus El Margallu, graças aos quais se decidiu a adquirir a sua
primeira gaita de foles.
Este facto acabou por
ser decisivo para a sua carreira musical, na medida em que lhe permitiu acercar-se mais de
perto ao trabalho de campo (com grupos como Urogallos, Raiganu e Andecha Folclor
dUvieu) que desenvolveu, de forma intensa e sistemática, colectiva ou
individualmente (entre 1975-1985).
E foi justamente este
labor que, em princípios de 1981, colocou Xuacu Amieva perante a possibilidade real de se
consagrar à música, fazendo da gaita de foles a sua profissão.
O
Pioneirismo da "Escuela de Música Tradicional"
Não foi, portanto, de modo algum por acaso que dois
anos depois de ter aberto a Escuela de Música Tradicional que Xuacu Amieva pode criar,
com alunos da escola e outros músicos já então consagrados tais como Pedro
Pangua ou Vicente Prado, entre outros -, uma primeira formação instrumental com a forma
de banda para participar no desfile América nas Astúrias e na primeira
edição da Nueche Folk dUvieu (1983). Mas a escola cumpriu também uma importante
função de reunião e de encontro com gentes que partilhavam interesses e paixões
comuns.
No entanto, não se
pense que Xuacu Amieva se limitou ao ensino na sua Escuela de Música Tradicional e à
direcção da Banda de Gaitas Naranco. Com efeito, depois de integrar um grupo que se
deslocou a Berlim (Alemanha) para participar no festival intercéltico local, Xuacu
tornou-se um dos membros fundadores do grupo folk Beleño, uma referência seminal no
panorama da música folk asturiana.
Emergência
da Folk Asturiana
A saída de Xuacu Amieva levou-o para a criação de um novo grupo
folk, Ubiña, na companhia de Roddy Herrera, Amaya, Marta Arbás, Michael Lee Wolfe e
José Manuel López. Corria o ano de 1985 e os objectivos deste novo colectivo que
ocupa um lugar ímpar no movimento da música folk asturiana foram claramente
explicados pelo seu gaiteiro.
Entretanto, se em 1984
Xuacu Amieva fez sair o seu primeiro Método de Gaita Asturiana, para
responder a uma necessidade básica sentida na Escuela de Música Tradicional, em 1985
seria verdadeiramente criada a Banda de Gaitas Naranco (na sequência da experiência
apresentada em 1983), uma formação seminal nas Astúrias.
Em 1986, no Festival Intercéltico
de Lorient, na Bretanha (França), Xuacu Amieva venceu o prestigiado Troféu Macallan para
gaiteiros solistas, o que de imediato lhe trouxe a possibilidade de gravar o seu primeiro
disco a solo, Onde lagua ñaz (Sociedade Fonográfica Asturiana), para o
qual contou com as colaborações, entre outros, de Fernando largo e pandeireteiras do
grupo Llumarinos. Um novo disco a solo, Xostrando (Fonoastur, 1989) seria
decisivo para enveredar por uma carreira a solo, seguindo-se discos como Lluna
Caldiá (1992), Tiempo de Mitos (1999) e Al Son del Fueu
(2003). Mas na sua discografia importa ainda referir a integração de obras suas em
discos testemunhais das tradições gaiteiras europeias (Les Cornemuses
dEurope en Cournouailles, 1991) e asturianas (La Gaita Asturiana, 1993).
O álbum Santiago, dos irlandeses The Chieftains, publicado em 1996, inclui a
faixa El Besu, com a participação de Xuacu Amieva (canto e rabel), o que lhe
valeu um Grammy. E, no ano seguinte, a Danza de Sigüenci foi incluída num
dos discos da popular série Naciones Celtas (Fonomusic).
Uma das vertentes criativas de Xuacu
Amieva tem sido a composição de temas musicais para documentários televisivos e curtas
metragens, sendo de destacar o facto de ter sido também o autor do guião-texto para um
documentário sobre os instrumentos musicais asturianos. A partir de 1995, Xuacu Amieva
colabora com o espectáculo Mercado Asturiano, efectuando concertos nas cidades onde o
mesmo é montado (neste show, os contos mitológicos contam com ilustrações musicais da
sua autoria). Aliás, sempre muito preocupado com a divulgação da música tradicional
asturiana, Xuacu Amieva tem colaborado com numerosas escolas, efectuando concertos como
multinstrumentista: gaita asturiana, rabeca, sanfona, flautas, percussões e
canto.
Astúrias:
País Musical
Quando se aborda a obra de Xuacu Amieva desde logo
constatamos que a mesma se situa ao nível da excelência expressiva e interpretativa,
testemunho inequívoco de uma vivência folk intensa e fortemente enraizada na realidade
da sua terra natal. Não obedece a modas, não transige com mercantilismos ou
oportunismos, antes se assume como discurso directo de uma postura intransigente na defesa
de uma maneira de ser e de estar profundamente comprometida com a terra e as suas gentes.
É, aliás,
precisamente no sentido deste compromisso (mandato cultural) que Xuacu Amieva insere todos
os seus trabalhos em prol da divulgação da gaita asturiana, instrumento que existe em
três tipos fundamentais, à semelhança do que sucede na Galiza: a grileira, com
ponteiras que variam entre 30 e 32 cms de comprimento; a redonda, apresentando ponteiras
que variam entre 32 e 34 cms de comprimento; e a tumbal, cujas ponteiras se situam acima
dos 34 cms de comprimento. De algum modo como corolário de toda a sua profunda paixão
pela gaita asturiana, em 1998, foi publicado um precioso Método de Gaita Asturiana.
Emílio guitarra
Javier
baixo eléctrico
Raquel Castro violino
Rúben
bateria
Xuacu Amieva gaita de foles asturiana, flauta transversal e voz
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