Vivaldi
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Batalha
Vivaldianas
Mulheres para as quatro estações
Batalha, Claustro do Mosteiro de Stª
Maria da Vitória
Dia 22 Maio de 2004, 21h30
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. . 14 mulheres instrumentistas
decidiram criar uma orquestra exclusivamente no feminino. Na sua estreia irão apresentar
as quatro estações do ano, através de visões separadas por 3 séculos: a de António
Vivaldi e de Astor Piazzola.
Sabemos hoje que parte significativa da produção musical de Antonio Vivaldi, "il
padre rosso", foi destinada às meninas do Ospedale della Pietà, em Veneza, uma
instituição religiosa feminina que recolhia raparigas órfãs e pobres.
À semelhança dos agrupamentos musicais do Ospeldale veneziano, 14 instrumentistas
portuguesas (ou residentes em Portugal) decidiram então criar uma orquestra constituída
exclusivamente no feminino.
Na sua proposta, darão a ouvir a mistura das perspectivas diferentes e
contrastantes sobre as estações do ano a partir da música de dois compositores latinos,
separados por mais de 3 séculos de história.
Antonio Vivaldi (1678-1741)
As Quatro Estações, Op. 8
Antonio Lucio Vivaldi nasceu na carnavalesca Veneza a 4 de março de 1678.
Não poderia ser diferente: a cidade italiana - emblematizada por máscaras coloridas,
gôndolas românticas e canais melancólicos - influenciou sua obra. Filho de Giovanni
Batista, Vivaldi ouviu os primeiros sons de violino em casa. Seu pai, um músico que
tocava na basílica de São Marcos, lhe ensinou os principais segredos das quatro cordas
do instrumento que o imortalizaria como um dos principais gênios da música.
A sensibilidade de Vivaldi levou-o a preocupar-se com as coisas da alma e a
optar pelo sacerdócio, como forma de se realizar. Estudou em seminários, onde também se
dedicou à música. Ordenou-se padre em 1703, mas sua arte não estava em rezar missas.
Pesou contra o padre ruivo a acusação da Igreja de se ter deixado envolver,
sentimentalmente, com uma de suas alunas de violino. Enfrentou as autoridades eclesiais o
quanto pôde, mas acabou desistindo da carreira. Para afastar-se do ofício, alegou
problemas de saúde. Há registros de que sofria com fortes dores no peito, possivelmente
provocadas por asma ou angina.
A partir de 1704, longe da batina, Vivaldi foi regente no conservatório de
Ospedale della Pietà, um dos quatro grandes orfanatos para meninas, na cidade de Veneza
que serviam, também, como escolas de música. Ali conheceu a moça por quem se apaixonou.
Era Anna Giraud, inspiradora de suas óperas e tormenta de todos os seus dias, até a
morte. Vivaldi passou a compor com intensidade. No conservatório de Ospedale permaneceu
durante três anos. Mais tarde, voltou a trabalhar neste mesmo local, no cargo de maestro
de concerto. Seu mestre em composição continuava sendo o notável Giovanni Legrenzi,
maestro da Capela Ducale. Os concertos para violino são os mais importantes dentro do
magnífico catálogo que reúne suas obras. Mas experimentou escrever também para
diferentes e excêntricos instrumentos, incluindo o bandolim, sempre com muita docilidade.
Nunca mais conseguiu se desligar do Pietà. Mesmo estando fora da terra natal,
enviava todos os meses, pelo correio, dois novos concertos para ser interpretados pelas
meninas. Repetiu tal rotina durante trinta anos. Como sua capacidade de criação não se
limitava a cumprir o compromisso assumido com o conservatório, escreveu além da
encomenda. Da sua lista de composições fazem parte 550 concertos, 350 para instrumentos
solo (mais de 230 para violino). Há ainda 40 concertos duplos, mais de 30 para solistas
múltiplos e perto de 60 para orquestra sem solo, 46 óperas, 23 sinfonias.
A mais popular obra de Vivaldi é, certamente, As quatro estações. Na verdade,
elas fazem parte de 12 concertos denominados O diálogo entre a harmonia e a criatividade.
Nessa série, se acentua a tendência ao sentido pitoresco que resulta na tentativa de se
expressar, musicalmente, fenômenos da natureza ou sentimentos, como a primavera, o
verão, o outono e o inverno retratados em As quatro estações. Vivaldi escreveu também
uma grande quantidade de obras sacras, entre elas a célebre Glória, especialmente
composto para o casamento do rei Luiz XV. Dedicava-se com extrema paixão tanto à música
sacra quanto à profana.
Continuava a escandalizar ao lado de Anna Giraud, cantora e ex-aluna, com quem
viajava para as apresentações. Vivaldi acabou abandonando a preconceituosa Veneza,
transferindo-se para Roma, Amsterdã e Viena, onde morreu a 28 de julho de 1741, aos 63
anos.
Não se conhece bem a biografia de Vivaldi. Em compensação, correram muitas
anedotas. Por causa de seus cabelos ruivos, Vivaldi teria sido apelidado o padre
ruivo. Teria sido suspenso das funções sacerdotais por abandonar o altar durante a
missa para notar, na sacristia, uma bela melodia que lhe ocorrera. Essas e outras anedotas
são sinais da grande fama que Vivaldi gozava em vida; mas logo depois de sua morte ele e
suas obras foram totalmente esquecidos. Pois Vivaldi foi principalmente compositor
instrumental, e em seu tempo a Itália já quis ouvir só óperas.
Esse esquecimento durou cerca de duzentos anos. Sua redescoberta, por volta de
1940, deve-se a alguns musicólogos, sobretudo Marc Pincherle. A divulgação é devida ao
conjunto romano I Virtuosi, dirigido por Renato Fasano, e especialmente ao discos. Vivaldi
voltou a ser um dos compositores mais tocados, gozando mesmo de popularidade. A ousadia e
a originalidade do compositor, ficam para sempre na história da música universal.
Caracterização - Vivaldi foi um dos maiores mestres do concerto grosso. Mas
também já escreveu numerosos concertos para um solista com acompanhamento de orquestra
de câmara. Em sua época, ainda não se conhecia a forma-sonata. A estrutura dos seus
concertos é a mesma dos Concertos de Brandenburgo, de J.S.Bach, sobre o qual Vivaldi
exerceu forte influência. Sua riqueza melódica é inesgotável e sua verve rítmica é
irresistível. A estrutura polifônica é menos densa que a de J.S.Bach. Vivaldi foi, sem
dúvida, compositor de primeira categoria, um dos grandes pioneiros da música
instrumental do século XVIII. Contudo, não convém compará-lo a J.S.Bach, o maior
gênio universal da música.
Concertos - Uma das principais obras publicadas de Vivaldi é o Estro armonico
(1712), coleção de 12 concertos grossos. Seis desses concertos foram, por J.S.Bach,
transcritos para órgão ou cravo, entre eles o n.º 8 em lá menor, o n.º 10 em si menor
e o n.º 11 em ré menor, este último uma das mais famosas composições de Vivaldi. Dos
concertos da coleção O diálogo entre a harmonia e a criatividade (1720), quatro formam
o conjunto As quatro estações. Também são muito conhecidos hoje os 12 concertos
grossos da coleção A extravagância, título que cabe ao bom número das obras de
Vivaldi, caprichosas e altamente pessoais.
Dos concertos para solistas cabe mencionar o Concerto para violino - Per
l'Assunta, o Concerto para viola em ré menor, o Concerto para cravo em ré maior - Alla
rustica, e muitos concertos para instrumentos de sopro, entre os quais o para oboé em fá
maior. Numerosos concertos de Vivaldi ainda não foram publicados. A Biblioteca Nacional
de Turim possui grande acervo de obras inéditas do mestre.
Música vocal - Em Turim também se encontram as partituras de 19 óperas, do
belo oratório Juditha triumphans (1716) e sobretudo muita música sacra: merecem menção
especial um Magnificat, um Stabat Mater e um poderoso Dixit para cinco solistas, duas
orquestras e dois órgãos.
Astor Piazzola (1921-1992)
As Quatro Estações Porteñas
(arr. Jorge Teixeira)
A música de Astor Piazzolla é sem dúvida uma das maiores expressões artísticas
que a Argentina já deu ao mundo. Incorporando ao tango um pouco de jazz e um pouco de
música clássica, Piazzolla conseguiu um resultado formidável e ao mesmo tempo inovador,
sofisticando esse ritmo portenho e revolucionando seus conceitos.
Astor Pantaleón Piazzolla, nascido no dia 11 de março de 1921 na cidade de Mar
del Plata, passou a infância entre Buenos Aires e Nova York - mais na segunda cidade que
na primeira. Começou a estudar música aos 9 anos nos Estados Unidos, dando continuidade
em Buenos Aires e na Europa. Em 1935 teve um encontro quase místico com Carlos Gardel, ao
participar como extra no filme El Día que me Quieras.
Sua carreira começa verdadeiramente ao participar como bandoneonista na
orquestra de Aníbal Troilo. Em 1952 ganha uma bolsa do governo francês para estudar com
a legendária Nadia Boulanger, quem o incentivou a seguir seu próprio estilo. Em 1955, de
volta a casa, Astor forma o Octeto Buenos Aires. Sua seleção de músicos - numa
experiência similar à jazzística norte-americana de Gerry Mulligan - termina delineando
arranjos atrevidos e timbres pouco habituais para o tango, como a introdução de
guitarra.
A presença de Astor gerou ao princípio receios, inveja e admiração entre a
comunidade tangueira. Nos anos 60 Piazzolla teve que defender com unhas e dentes sua
música, abalada pelas fortes críticas. A controvérsia girava em torno de se sua música
era tango ou não, a tal ponto que Astor teve que chamá-la de "música
contemporânea da cidade de Buenos Aires". Mas isso não era tudo: Astor provocava a
todos com sua vestimenta informal, com sua pose para tocar o bandoneón (tocava de pé,
quando a tradição era segurar o fole sentado) e com suas declarações que mais pareciam
desafios.
A formação da primeira parte dos anos 60 foi, basicamente, o quinteto. Seu
público era integrado por universitários, jovens e pelo setor intelectual, se bem estava
longe de ser massivo. Astor já tinha fama de durão e bravo, de lutador, estava em pleno
período criativo e se rodeou dos melhores músicos.
Com Adiós Nonino, Decarísimo e Muerte de un Ángel começou a trilhar um
caminho de sucesso que teria picos em seu concerto no Philarmonic Hall de Nova York e na
musicalização de poemas de Jorge Luis Borges.
Em seus últimos anos, Piazzolla preferiu apresentar-se em concertos como
solista acompanhado por uma orquestra sinfônica com uma ou outra apresentação com seu
quinteto. Foi assim que percorreu o mundo e ampliou a magnitude de seu público em cada
continente pelo bem e a glória da música de Buenos Aires.
Astor Piazzolla faleceu em Buenos Aires no dia 4 de julho de 1992, mas deixou
como legado sua inestimável obra - que abrange uns cinquenta discos - e a enorme
influência de seu estilo. Na verdade, a produção cultural sobre Piazzolla parece não
ter fim: se estende ao cinema e ao teatro, é constantemente reeditada pelas
discográficas e ganha vida na Fundación Piazzolla, liderada por sua viúva, Laura
Escalada.
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