Lançamento
Maria Bethânea: Brasileirinho
Do sertão ao litoral, do interior à megalópole
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O repertório era para ser baseado apenas em referências
índias, mas rapidamente abriu asas para o Brasil inteiro, com ajuda de Chico César na
escolha do repertório. Brasileirinho pretende ser assim a celebração de um conceito
amplo de arte brasileira.
Produzido por Maria Bethânia, com direcção musical de Jaime Alem,
"Brasileirinho" inicia com uma mistura de uma canção dos baianos Gerônimo e
Ildásio Tavares,"Salve as Folhas", com intervenções - poética - do
maranhense Ferreira Gullar, recitando "O Descobrimento", do paulista Mário
Andrade e - musical - dos mineiros do grupo Uakti.
"Yayá massemba", dos baianos Roberto Mendes e Capinam, traça a
viagem de um samba "parido no ventre escuro de um porão" de navio negreiro,
metáfora da África-Brasil, sua herança e seus desdobramentos. Herança retratada ainda
em "Capitão do Mato" (do pernambucano Vicente Barreto e do carioca Paulo César
Pinheiro), na "Cabocla Jurema" e no "Ponto de Janaína", esta com a
participação de Miúcha.
A paranaense Denise Stoklos interpreta "O poeta come amendoim",
também de Mario Andrade, abrindo o caminho para "Santo Antônio", de Jota
Velloso, louvando em sincretismo musical o santo italiano que no Brasil recebeu fama de
casamenteiro ("amor que se perde nasce outro no ninho"). O grupo de choro Tira
Poeira, que reúne Rio, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em sua formação, acompanha o
"Padroeiro do Brasil": "vamos cantar com alegria e prazer porque São Jorge
é o padroeiro do Brasil", nos versos da canção de Ary Monteiro e Irany de
Oliveira, saudando o 23 de Abril de Jorge, mas também de Ogum e Oxossi: "Quem é
devoto é só fazer uma oração / que o guerreiro sempre atende dando a sua
protecção".
"São João Xangô Menino" é uma composição de Caetano Veloso e
Gilberto Gil feita para o grupo Doces Bárbaros (que reuniu Bethânia e Gal, além dos
autores da canção), na década de 70. No sincretismo afro-romano-brasileiro, Xangô, o
orixá do fogo, liga-se às festas de São João, devido a associação do santo católico
às fogueiras típicas do mês de junho. Bethânia cita o "São João do
Carneirinho", de Luiz Gonzaga, antecipando o ponto de macumba de louvor a Xangô e
João.
Do sertão do Pernambuco de Luiz Gonzaga, vem o "Boiadeiro", de
Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, sucesso do Rei do Baião. "Cigarro de
Palha" acende as Minas de Guimarães Rosa, recitado por Bethânia - "Felicidade
se acha é em horinhas de descuido". Também do criador de Diadorim, o texto
"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura", serve de
prelúdio para ao dueto de Bethânia e Nana Caymmi em "Sussuarana".
Feito um Sebastião índio, o guerreiro de "O senhor da floresta" some
no Rio Chuí "crivado de flechas de longe atiradas por outro tupi", para
reaparecer aos pés de Tupã. Entre os habitantes ancestrais das terras brasileiras e a
ordem da bandeira nacional, estão "os riscos que corre essa gente morena"
diante do "horror de um progresso vazio", conforme a cadência poética de
"Purificar o Subaê", samba de Caetano Veloso, oração pela diversidade
ecológica e religiosa do Recôncavo da Bahia. "Pátria Minha", de Vinicius de
Moraes, é também a pátria lírica de todos os brasileiros, ressonante em Villa-Lobos,
na "Melodia Sentimental" do "Brasileirinho" de Bethânia.