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Foto: Pedro Catarino e Tiago Sousa Dias
Transladação
Amália é do Povo
Texto de Rita Montenegro, publicado no Correio da Manhã - 09 de Julho de 2001

Amália repousa finalmente no Panteão Nacional. A grande senhora do fado, a mulher do povo, a voz de Portugal descansa desde ontem [dia 8 de Julho de 2001] na sua última morada. Os restos mortais da fadista foram depositados na Sala de Língua Portuguesa, junto a figuras célebres da nossa cultura como Guerra Junqueiro, Camilo Castelo Branco e João de Deus. Numa homenagem nacional, a trasladação do corpo da diva do fado do Cemitério dos Prazeres para o monumento, decorreu como se de um funeral se tratasse. Centenas de pessoas não arredaram pé dos locais por onde a urna iria passar. A Rua de S. Bento (onde Amália viveu nos últimos anos) era das mais aguardadas.

Contudo, os ânimos exaltaram-se quando o povo se apercebeu que o carro funerário, escoltado por nove motos da divisão de trânsito da PSP, sob o comando do capitão João Cartaxo, não iria parar o tempo necessário para poderem prestar uma última homenagem à fadista. Apenas conseguiram atirar pétalas de rosa, acenar com lenços brancos e gritar: "Amália, Amália, Amália". Diga-se em abono da verdade que o trajecto do cemitério até ao Panteão mais parecia uma maratona, quase impossibilitando que se seguisse o veículo. Mas houve quem o tenha conseguido. Um idoso, de fato e gravata, seguiu o carro funerário numa bicicleta, mostrando que a sua devoção a Amália é maior do que o peso da sua idade. No nº 193, onde Amália viveu até 6 de Outubro de 1999, as janelas estavam fechadas mas a fadista era representada por um xaile preto e uma rosa branca pendurados na varanda. Entretanto, já no Panteão, os populares juntavam-se e tentavam ultrapassar o gradeamento e a barreira policial, localizada no cima da escadaria do monumento, na tentativa de ver mais de perto o caixão coberto com a Bandeira Nacional. No momento, os privilegiados eram individualidades do mundo do espectáculo e da política, familiares, amigos e comunicação social.

"Manifestação de saudade"
António Guterres, sentado ao lado de Almeida Santos, falou ao Correio da Manhã, para acentuar que a homenagem se tratava "de uma manifestação de saudade". "É impossível vê-la e ouvi-la - a não ser pelos discos que temos em casa -, mas a sua presença faz falta a todos os portugueses", disse. Ao som do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, acompanhados por um grupo de guitarras (Raul Nery, Fontes Rocha, José Luís Nobre Costa e Pinto Varela) e violas (Joel Pina, Francisco Perez Andion, Jorge Fernando, Lelo Nogueira e Tó Moliças), a chegada dos restos mortais de Amália foi acompanhada por um misto de euforia, emoção e lágrimas. Os populares não se fizeram rogados, aplaudiram, choraram e, mais uma vez, gritaram: "Amália é do povo".

Seguiu-se a interpretação de fados da cantora como "Estranha Forma de Vida", "Ai Mouraria", "Fado do Ciúme", "Lisboa Não Sejas Francesa", "Povo Que Lavas no Rio" e "Fado Malhoa". O Hino Nacional ecoou então pela zona envolvente do Panteão, num momento arrepiante em que as lágrimas voltaram a rolar. Posto isto, Jorge Sampaio usou da palavra e discursou de forma emocionada, mas simples (ver caixa). Mais uma vez, a música soou, mas o tempo urgia e era chegada a altura de Amália ser recebida pelo Panteão Nacional - a urna foi depositada na sala tumular, aberta pouco depois aos populares, para, posteriormente, ser conduzida à Sala da Língua Portuguesa, onde durante a noite se procedeu à selagem do túmulo.

Opiniões divergem
As opiniões sobre a trasladação dos restos mortais de Amália foram contraditórias. Durante a cerimónia religiosa, no cemitério (ver caixa), podiam ouvir-se comentários como "Amália é do povo, devia estar junto do povo", "Amália deve ir para o Panteão por ser um símbolo de Portugal" ou, ainda, "Quem é que pode estar a pagar 400 escudos por cada visita?" Quando questionado sobre esse mesmo pagamento, o primeiro-ministro salientou ao CM que a quantia era "para ver o Museu". "Mas os devotos de Amália podem visitar o seu túmulo gratuitamente todos os domingos de manhã, nos aniversários (nascimento e morte) e no Dia de Todos os Santos", explicou.

"Deusa, Musa, Genial"
A homenagem nacional iniciou-se por volta das 09h00, quando os restos mortais da diva do fado foram retirados do gavetão e levados para o interior da capela do Cemitério dos Prazeres. A manhã ainda estava a começar mas as pessoas já rumavam ao local. Quando por volta das 14h15, as portas se abriram e, pela primeira vez desde 8 de Outubro de 1999, se viu a urna de Amália, vozes se ergueram e o nome da fadista ecoou nos claustros da capela. A entrada fez-se, ordeiramente, com responsáveis da agência Magno a coordenarem a movimentação do povo que queria chegar junto à urna ladeada por quatro guardas-de-honra. Para quem esperava uma enchente de curiosos, seguidores, admiradores, familiares, amigos e figuras públicas, enganou-se. Pelo menos, à hora de abertura das portas. A razão para a fraca afluência no início da homenagem deveu-se sobretudo à intenção da população em dividir-se entre a cerimónia religiosa no cemitério e as oficiais no Panteão Nacional. Ainda cá fora, antes da abertura das portas, o Correio da Manhã conseguiu falar com D. Filipina, mulher do irmão mais velho de Amália, Vicente, que, segundo a viúva, "morreu três meses depois" da diva por causa "do desgosto".

Emocionada e expectante, D. Filipina aguardava que a capela fosse aberta ao público e foi frisando que a família estava feliz com tudo o que estava a acontecer. "Penso que ela vai para o lugar certo onde pode ser admirada", disse, acrescentando que a trasladação já devia ter acontecido. No interior da capela, fados de Amália passavam de boca em boca, como que quisessem espantar a emoção, a dor, as lágrimas. Até o "Malhão, Malhão" foi incluído no repertório dos presentes. Durante as horas que antecederam a cerimónia religiosa, os populares ocuparam o tempo a distribuir poemas, letras das músicas da diva e até houve quem trouxesse para o local sagrado um rádio para ouvir a grande voz. Junto à urna, ainda dentro da capela, as pessoas deixaram ramos de flores e até um livro com poemas de Ary dos Santos, Natália Correia e Pablo Neruda. No livro das condolências, podiam ver-se assinaturas de familiares, amigos e simples admiradores, residentes no País e no estrangeiro. Cá fora, Joaquim Geada, um fã de Amália, segurava apático uma Bandeira Nacional com a inscrição: "Deusa, Musa, Genial. Serás eternamente a voz de Portugal". Empregado de mesa, serviu a fadista, em Luanda, em 1970, e depois teve "a honra" de lhe oferecer flores por quatro vezes. Um gesto que a morte de Amália não travou. Texto: Rita Montenegro e Fotos: Pedro Catarino e Tiago Sousa Dias
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