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Lisboa
Panteão ouve as Janeiras para Amália
Texto Publicado no Correio da Manhã - 07 de Janeiro de 2001
Texto: Miguel Azevedo | Imagem: Natália Ferraz

Todos os dias são dias para chorar Amália e ontem, uma vez mais, as lágrimas voltaram a dar de beber à dor. Lá onde ela está, no Panteão Nacional, a tradição fez-se cumprir porque, segundo se diz, todos os anos, à porta de Amália Rodrigues, cantavam-se as Janeiras. Rosa Guia, de 68 anos, uma “velha” vizinha, lembra-se da festa que por esta altura se fazia na Rua de S. Bento.

“Nunca faltava. Por isso, hoje tinha que vir”, confidenciou-nos com aquela timidez própria de uma idade que já começa a fazer inveja. Cantores e declamadores, que mais não fizeram do que dar voz aos poemas da fadista, marcaram presença num Panteão, que já não é só conhecido como um monumento nacional mas, acima de tudo, como a eterna casa da Amália. E é lá que se chora a saudade, como a fadista sempre o fez. É lá que se dá a mão e se partilha a dor com quem não se conhece, “porque Amália era de todos e Amália nos unia”, disse--nos Adelina Castro, de 61 anos, à medida que deixava cair, por entre os dedos, as contas de um terço que teimava em apertar como castigo, castigo por não ter conhecido pessoalmente a fadista em vida.

Lá, onde ela está, como todos os dias, dezenas de pessoas tocam a morada de Amália Rodrigues com o rigor de quem beija, encostando a mão na pedra fria e deixando escorrer a saudade na forma de uma única e singular lágrima. “Sempre que aqui venho não consigo deixar de chorar”, disse-nos uma anónima admiradora de Amália que só não quis dar o nome, porque segundo diz, “a Amália é do Mundo. Não é de ninguém. E eu não sou ninguém”.

'Lembrar-te é nosso fado'
Lá, onde ela está, até há quem limpe o chão com as mãos e beije as pétalas que caem. “Porque chorar Amália é quase chorar Deus e Deus é quase Amália”, fez questão de nos dizer Fátima Cordeiro, interrompida aqui e ali na sua reza por uma palavra mais alta declamada pelo actor Victor de Sousa, que ontem emprestou a sua voz aos agora não menos eternos versos de Amália.

Lá, onde ela está, a tradição fez-se ontem cumprir num Panteão que se muitos nem sabiam onde era, hoje só o conhecem por causa da diva do fado. Lá, onde para muitos ela não devia estar, os cantores Juan Santa Maria, António Sima, António Toscano e Giovanni Concolino Démore fizeram aquilo que a morte nunca mais deixará Amália fazer: cantar. Junto ao túmulo da fadista, jaziam ontem os versos de quem aos pés da sua cama, lá na Rua de São Bento, vê apenas e só, hoje, o olhar triste de Jesus. “Acho que ela não está a ter a homenagem que merece.

Hoje, é a parte intelectual que está aqui e não a popular”, disse-nos Rosa Dias, poetisa popular de Campo Maior como se apresenta, e que no dia em que a fadista morreu escreveu uns versos que brevemente irá declamar no Panteão Nacional. Lá, onde agora está, Amália Rodrigues é nosso destino. Como escreve Rosa Dias “se Deus nos deu Amália desta maneira, ter saudades tuas, e chorar-te não é pecado. É nosso fado”.  Voltar ao Topo 

 

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