Amália vela por Lisboa
Por: Manuela Silva Reis, Jornal Correio da Manhã, Editado
dia 17 de Abril de 2000A voz de Amália ergueu-se por
Portugal, por Lisboa e pelo Tejo e é hoje este mesmo rio que a embala, tal como embalou a
criatividade de Camões, um dos seus poetas favoritos, o mesmo que cantou as Tágides às
quais ela agora se junta. É Amália quem desde ontem engrandece a zona ribeirinha da
cidade, junto ao Museu da Electricidade, através da obra, "Guitarra na Proa",
do escultor Domingos Oliveira.
A Administração do Porto de Lisboa, a Câmara Municipal e o Governo juntaram
esforços para mais uma homenagem à fadista de todos nós, ao fado e a Lisboa e o
resultado foi a inauguração do monumento que o seu autor explica como fruto "da
inspiração construída pelo meu grande amor e paixão pelo fado", como se pode ler
num texto que acompanha o seu currículo.
Numa cerimónia marcada pelas presenças dos ministros do Equipamento Social,
Jorge Coelho, e da Cultura, Manuel Maria Carrilho, do secretário de Estado da
Administração Marítima e Portuária, Narciso Miranda, e do presidente da Câmara de
Lisboa, João Soares, a fadista foi recordada igualmente por artistas como Ada de Castro,
Manuela Maria,, Armando Cortez, Io Apolloni, Carlos Zel, João Braga, Vítor de Sousa,
familiares e por alguns populares que, ao som da Banda da Armada, dirigida pelo comandante
Araújo Pereira, não esconderam uma lágrima de saudade e palavras de muito apreço.
"Ainda me lembro quando Amália morava em Alcântara. Ela tinha 17 anos e
eu 12 e subíamos o Alvito. Fazíamos companhia uma à outra. Depois ela saiu de lá e
nunca mais a vi. Só depois de morta.", lembrava ontem comovida, Laura Fernandes, uma
das setenta pessoas em representação da Comissão Unitária de Reformados, Pensionistas
e Idosos de Alcântara, cuja tesoureira, Maria Anastácia Martins da Silva, de 76 anos, é
da opinião que o corpo da fadista "já devia ter sido tirado de onde está. Ela
merecia ir para um sítio melhor". E continuou relembrando os tempos em que a jovem
Amália passava à sua porta " com a jiga carregada de laranjas".
Antes da cerimónia ter início, com a intervenção da Presidente do Porto de
Lisboa, Natércia Cabral, que opinou que agora o povo de Lisboa têm ainda mais razões
para visitar o seu rio, e já depois da Banda da Armada ter tocado "Canção do
Mar", Manuel Ferreira Rodrigues, um "amaliano convicto e confesso", como
fez questão de frisar ao "CM", recolhia junto dos presentes nesta homenagem
assinaturas para o projecto "Amália nos Jerónimos", uma pretensão que
continua a ser requisitada pelo povo.
"Estamos a viver aqui de uma forma singela, como estou certo agradaria a
Amália, um momento de homenagem a Lisboa, a cidade que tanto homenageou", referiu
João Soares, presidente da edilidade, agradecendo ao artista plástico Domingos Oliveira
"este trabalho notável que rende homenagem ao rio, à cidade e a Amália, de uma
forma talentosa". Para finalizar, afirmou a sua (e dos portugueses) paixão pela
fadista "e pela sua memória que importa preservar. É essa voz que queremos
continuar a ouvir para sempre nesta cidade. É à Amália que aqui estamos todos a amar
outra vez".
De modo a enfatizar a importância do nome da fadista para Portugal - "um
ícone da cultura musical portuguesa do século XX", nas palavras do ministro da
Cultura Manuel Carrilho - João Soares anunciou que o seu nome será atribuído ao jardim,
que encima o Parque Eduardo VII, um projecto do engenheiro paisagístico Gonçalo Ribeiro
Telles.
A cerimónia terminou com nova actuação de 60 dos 120 elementos da Banda da
Armada e com as cordas das guitarras e violas a tangerem por Amália. Carlos Gonçalves,
Luís Ribeiro e Pinto Varela dedilharam as cordas das guitarras e Joel Pina e Lelo
Nogueira as das violas.
A obra e o autor
Natural de Trás-os Montes, o escultor Domingos Oliveira, referiu: "Hoje, aqui à
beira do rio Tejo, fico grato por oferecer à cidade que me acolheu esta obra". E
lembrou Amália como uma grande mulher "paixão de todos os sentimentos", a
mesma que é hoje o seu sonho concretizado, "ver Amália junto do rio".
Na homenagem que presta à fadista, o artista escreve: "No meu percurso de
escultor Amália teria de ter uma situação privilegiada como também este rio Tejo que
está lado a lado com o meu atelier que, por diversas vezes - agora sem dramatismos ou
queixas -, o inundou. O Tejo não tem golfinhos, mas pode ser que um dia volte a ser azul.
Frente a ele, fica a minha canoa, a minha guitarra e a nossa Amália".
A escultura da "rainha do fado", da autoria de Domingos Oliveira, foi
construída em bronze, com base em granito, tem quatro metros de altura e cinco toneladas
de peso.
O escultor, marcadamente influenciado pela agreste paisagem transmontana, vem para Lisboa
em 1968 em busca de novos horizontes. Antes, no entanto, teve de viajar até África onde
cumpre o serviço militar obrigatório. A permanência em Luanda e o ambiente de guerra
fê-lo despertar para um novo conceito de vida.
É em 1979, depois de conhecer o escultor/pintor Óscar Alves e de se sentir
insatisfeito com o trabalho diário de secretária numa grande empresa nacional, que
esboça os primeiros movimentos com o barro. É um fascinado por aquela matéria e em 1980
já consegue realizar a primeira exposição, em Santarém.
Sem esquecer as técnicas primitivas evolui e vai para Madrid trabalhar com o
fundidor Jose Luiz Ponce (um dos grandes fundidores da Pensínsula).
Agora já com o seu próprio atelier executa encomendas e trabalha o bronze, a
prata e o ouro. Hoje em dia as suas colecções já estão espalhadas por todo o Mundo,
sendo que um dos marcos da sua carreira acontece, com certeza, com esta Amália e o seu
fado, fronteiros ao Tejo. Texto: Manuela Silva Reis Fotos: Joana
Miranda Jornal Correio da Manhã.