"A melhor tradição é a
criação"
Corsos I Muvrini e a sua 'Strada'
Texto Publicado no Correio
da Manhã por Luís F. SilvaCom mais de uma década
de carreira e 13 álbuns no activo, o grupo corso I Muvrini é, por mérito próprio, uma
das instituições da música tradicional do Mediterrâneo e um dos mais aplaudidos actos
da denominada "world music".
Por cá, no entanto, o grupo só agora começa a juntar admiradores a uma
galeria que inclui, entre outros, Lou Reed e Sting. Para tal contam com "A
Strada", um resumo de carreira feito "best of", recentemente lançado no
mercado, enriquecido com dois inéditos em disco: "Amsterdan", uma brilhante
versão do clássico de Jacques Brel, e "Terre d' Oru", a versão de
"Fields of Gold" de Sting, que de resto participa no tema.
Em entrevista ao Correio da Manhã, um dos fundadores do grupo, Jean-François
Bernardini recordou os tempos difíceis do grupo e o papel interventivo que, na sua
opinião, as músicas do Mundo podem desempenhar: "A 'world music' é a identidade
sem hostilidade(...).A música é hoje o primeiro instrumento capaz de mostrar que todos
temos algo em comum, que há algo que nos une", disse.
Fundado pelos irmãos Alain e
Jean-François Bernardini, filhos de um cantor e poeta corso falecido em 1977, I Muvrini
é hoje o perfeito exemplo do caldeirão de culturas, contando nas suas fileiras com
elementos de várias origens, da Bretanha a Madagáscar. A música, essa, apesar de
enraízada na Córsega abriu-se a outras influências, celtas, cajun, jazz... "É
dificil dizer o que nos inspira. Tudo o que oiço, leio ou vejo inspira-me. Todas as
pessoas que conheço, de África à Geórgia, os ciganos...", adiantou.
Chegar aqui, porém, não foi tarefa fácil, recordou: "Ao princípio foi
muito difícil. Ninguém nos apoiava, gravávamos por conta própria, produziamos os
nossos espectáculos, as gravações, fundámos uma editora, distribuíamos os discos e
só muito mais tarde é que apareceram as grandes companhias. Foi assim durante sete ou
oito álbuns. Mesmo na Córsega chegámos a ser proibidos pelo sistema político, que
achava que éramos uma fonte de problemas. Foi muito dificil, mas hoje quando tocamos em
Bercy, no Zenith ou no estrangeiro, é uma vitória tremenda. Porque nunca cedemos e
encontrámos o nosso caminho".
A vida feita canção
Fortemente inspiradas pela música tradicional da Córsega, as canções dos I Muvrini
"provêem da vida", adiantou. Explicando: "A principal recolha que fazemos
é dentro de nós. Não fazemos canções de forma científica. A música é uma tentativa
de expressar o que sentimos cá dentro e isso releva da memória, porque começámos muito
cedo a ouvir este tipo de música. O meu pai era um excelente cantor de canções
polifónicas, os 'blues' da Córsega, um tipo de canções essencialmente vocais, e isto
é parte das nossas memórias".
Todavia, nem só na tradição se inspira a música dos I Muvrini. "A música não
nasce tradicional, torna-se tradicional. A nossa música nasce hoje, quero que minha
música nasça hoje. A melhor tradição é a criação. Cada geração tem qualquer coisa
a dizer e nós também. Hoje usamos instrumentos modernos e antigos, mas são todos
actuais e passa-se o mesmo com a música. As canções polifónicas não são antigas. É
como o fado. O fado não é velho, é moderno, actual".
Preocupados tanto em "preservar as raízes" como em "criar algo
contemporâneo", os I Muvrini concordam com a ideia de que a sua música se pode
inscrever na entretanto muito em voga "world music". "O importante não é
a montra da loja em que estamos colocados", disparou, acrescentando que a mais valia
que o rótulo veio possibilitar foi, sobretudo, a de "afirmar as diferenças. Um
escritor português, Fernando Pessoa, escreveu que 'a minha dimensão não é o meu
tamanho. A minha dimensão é o que vejo', é aquilo que oiço, aquilo de que gosto. É
essa a dimensão do homem. E na música, hoje, a 'world music', passa essa mensagem".
A necessidade de cantar
"Muitas vezes cantamos porque queremos lutar contra algo, porque queremos expurgar
algo", lançou Bernardini quando questionado sobre as letras das canções...em
corso. "É importante cantar em corso, porque durante muito tempo a língua foi
proibida nas escolas e temos muita dificuldade em a manter viva".
Todavia, as palavras encerram em si desejos e motivações, confessou:
"Não escrevo canções de forma gratuita. Há sempre uma razão, uma razão profunda
para o fazer. É preciso dizer isto ou aquilo e há muita coisa que gostaria de mudar. Sou
uma pessoa que acredita que a arte pode alterar tudo no Mundo. Precisamos de acreditar
nesse sonho. Usando a arte, e se formos fortes, podemos mudar alguma coisa".
Cultivando um muito particular apreço pela cultura portuguesa - além de Pessoa
citou Miguel Torga e Amália - Bernardini e os I Muvrini pretendem mostrar quanto antes a
sua música, ao vivo, em Portugal.
"Estamos a começar um projecto importante em Portugal. Acho que temos algo
em comum para partilhar. Não sei quando será possível tocarmos cá, talvez só a partir
de Setembro, porque agora temos um novo álbum para fazer e digressões em Julho e Agosto
e depois a partir de Outubro. Mas gostava que fosse o mais cedo possível. Quero aprender
também com vocês, acho que podemos desenvolver qualquer coisa em conjunto", frisou.
Luís F. Silva