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Raiz di Djarfogo - Cap-Vert
Texto publicado no Jornal Expresso por GLAÚCIA NOGUEIRA

Verdes raízes
PERPETUAR a memória musical da Ilha do Fogo, relembrando nomes consagrados mas também os trovadores e cantadeiras populares que de forma geralmente anónima legaram a Cabo Verde o que é hoje uma rica tradição, é a proposta do grupo Raiz di Djarfogo, que passou a integrar a colecção com a qual a etiqueta Ocora, da Radio France, procura salvaguardar os repertórios tradicionais ao redor do mundo, tendo editado até ao momento cerca de 280 títulos.

É obra de responsabilidade para um grupo de amadores que, além de tocatinas informais aos fins-de-semana, anima pontualmente eventos organizados pelo município de São Filipe, de onde são naturais os seus membros. Antes do Raiz de Djarfogo, tiveram direito a um CD a solo nesta colecção o chamado «pai do funaná», Codé di Dona, e N'toni Denti D'Oru, solitária voz masculina no finaçon, género dominado por mulheres.

Ainda que a fronteira do público cabo-verdiano ou africano de língua portuguesa não tenha sido ultrapassada por nenhum artista do Fogo, esta ilha não é excepção quanto à fertilidade musical que caracteriza Cabo Verde. O que Raiz di Djarfogo vai buscar é aquilo que permanece praticamente oculto, nomes que fizeram história e com a sua obra contribuíram para moldar uma especificidade dentro do panorama musical do país.

O CD ressuscita nomes como Príncipe de Ximento (1896-1958 aprox.) e Nho Aniba Henriques (1890-1963), personagens carismáticas da ilha na primeira metade do século, que se tornaram célebres pelo olhar crítico e a ironia das suas criações. Posicionados em dois extremos da sociedade - o primeiro, negro e trabalhador braçal; o outro, branco, proprietário de terras e comerciante -, consta que mantinham boas relações e questiona-se mesmo se algumas das letras atribuídas a Príncipe (que estudou apenas até à terceira classe) não seriam do outro.

Homem de temperamento instável, Nho Aniba Henriques despertava ao mesmo tempo simpatia e rejeição. Embora pertencendo ao mundo dos brancos abastados, numa sociedade que durante séculos viveu um autêntico apartheid, relacionava-se habitualmente com indivíduos das classes populares e foi opositor do regime de Salazar. Escreveu versos mordazes e peças teatrais que lhe valeram ser chamado «o Gil Vicente do Fogo».

É a criticar a soberba da sociedade local que compôs «Grandeza di Djarfogo», único exemplo de contradança incluído no CD. Exímio executante de acordeão, Príncipe de Ximento, na faixa que lhe é dedicada, aponta o dedo às levas de trabalhadores que, para escapar à fome, partem para as roças de São Tomé e Príncipe, fazendo a fortuna de alguns negociantes: «Asnos e burros comem banana/ Sabido no escritório come cacau...»

Do pouco que se escreveu sobre esta personagem, quase tudo se deve ao escritor Henrique Teixeira de Sousa, que o conheceu em criança - tendo sido por ele homenageado com uma cantiga, ao regressar à ilha diplomado em Medicina - e o retratou em pelo menos duas das suas obras.

Pedro Monteiro Cardoso (1883-1942), poeta, jornalista e investigador da cultura local, um dos primeiros intelectuais cabo-verdianos a debruçarem-se sobre a questão da identidade nacional e da valorização do crioulo, aparece com a coladeira «Nha Codé», um clássico da música cabo-verdiana, que partilha esta edição com géneros menos conhecidos, como o brial e o atalaia baxu. Este último, originário da localidade de Atalaia, na parte leste da ilha, resulta de uma conjugação de coladeira, mazurca e valsa. Os dois exemplos que constam do disco são da autoria de Putchota (Daniel Varela), que além destas composições e de duas mornas comparece na gravação com uma voz calorosa enquanto vocalista principal de Raiz di Djarfogo.

Quanto ao brial, cantado por mulheres e baseado na improvisação, faz parte do ritual da festa da bandeira, realizada actualmente por ocasião do dia de São Filipe mas ligada, em outros tempos, também às datas de São Sebastião (Janeiro) e dos santos populares no mês de Junho. Aparece em duas faixas, sem autores conhecidos, assim como algumas mornas e coladeiras que, de boca em boca, foram passando de geração a geração.

Este retrato musical da ilha do Fogo, que não esgota o tema, chega-nos no registo cem por cento acústico do grupo, cuja autenticidade convenceu os antropólogos franceses Jean-Yves Loud e Viviane Liêvre - incumbidos do trabalho de recolher música tradicional em Cabo Verde, no âmbito da cooperação cultural franco-cabo-verdiana - a optar por um trabalho a solo de Raiz di Djarfogo, já que esta gravação, feita em 1998, se inseria num trabalho de recolha em todas as ilhas que resultou no CD duplo Un Archipel de Musiques, lançado já este ano. (GLAÚCIA NOGUEIRA - Jornal Expresso)
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