
Gaiteiros de Lisboa
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Macaréu, 2002
Alinhamento
1. Era não era do tamanho de um Pardal
2. Cantiga
de Quadras
3. Contra
Chula não há Argumentos
4. Velha
Bufelha
5. Plantei
Amores
6. O
Tejo corre no Tejo
7. Quando
é Lua Cheia
8. Quando
Judas teve Sarampo
9. Terra
de Ninguém
10. Aqui há gato... Quem me tramou?
11. Canto de Trabalhos
12 e 13. Nordeste e Mbira do Norte
14. Rondacalhe
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Crítica
Macaréu
A nova onda dos Gaiteiros de Lisboa
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Por: João MaiaAlgumas
semanas depois de uma primeira apresentação ao público lisboeta numa Aula Magna a
"rebentar pelas costuras", foi colocado à venda o novo disco dos Gaiteiros de
Lisboa, intitulado Macaréu. E tal como nos foi habituando desde o primeiro álbum,
'Invasões Bárbaras', este grupo, unimamente considerado o mais vanguardista na área da
música portuguesa de raiz tradicional, traz-nos bastantes novidades com este novo
trabalho.
A primeira e principal novidade, é que este sexteto deixou de o ser para passar
albergar um novo elemento. Aos já conhecidos e consagrados Carlos Guerreiro, José Manuel
David, José Salgueiro, Paulo Marinho, Rui Vaz e Pedro Casaes, juntou-se agora o
percussionista Paulo Charneca, que já havia colaborado com alguns dos músicos que
compõem os Gaiteiros em outras ocasiões, como por exemplo no projecto Adufe, idealizado
por José Salgueiro.
Se a primeira novidade é realmente uma surpresa (e uma boa surpresa como
confirmaram as recentes prestações do Paulo no concerto da Aula Magna e no showcase na
Fnac do Chiado), já não se pode considerar tão surpreendente o alinhamento do disco no
que toca à escolha dos instrumentos. Não é que os Gaiteiros se repitam em relação aos
álbuns anteriores (isso sim seria uma surpresa), o que se passa é que, como já nos têm
habituado, estes seis (agora sete) músicos voltam a criar instrumentos ou a adoptar novas
aproximações a instrumentos já existentes. À sua já grandinha colecção os Gaiteiros
adicionaram agora instrumentos como os conhecidos clarinete e berimbau, e preciosidades
como o borbulhofone, ou os tubarões, instrumento de percussão composto essencialmente de
tubos, e cujo nome presumo que signifique túbaros grandes, em referencia a outra
invenção dos Gaiteiros, os túbaros de Orfeu.
Mas nomes à parte, o que é um facto é que, como é já sua imagem de marca,
estes brilhantes músicos continuam a não se conformar apenas com os sons que encontram
nos instrumentos comuns e sempre que precisam de um novo som, não se fazem rogados e
inventam-no. Ou então procuram-no em instrumentos já esquecidos. Nesta constante
pesquisa sonora, é justo que se faça uma referência muito especial ao excelente
trabalho de investigação do Paulo Marinho, cada vez mais o Gaiteiro dentro dos
Gaiteiros, que foi encontrar os sons que precisava nas gaitas transmontanas, nas gaitas
medievais, na smallpipe ou nas gaitas búlgaras (gaidas).
Mas não é justo falar dos Gaiteiros de Lisboa apenas por serem bons
executantes ou pela sua extravagancia na escolha dos sons com que nos brindam. É também
de assinalar o estupendo trabalho que estes músicos fazem no que diz respeito à
composição e arranjos dos temas (mérito essencialmente ao Carlos Guerreiro, José
Manuel David e José Salgueiro, que assinam a maioria), bem como a escolha e escrita dos
textos para musicar. Neste álbum, os Gaiteiros vão desde ladaínhas populares a belos
poemas de Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill ou Amélia Muge.
Neste disco, que considero o melhor e mais consistente dos Gaiteiros de Lisboa
até à data (e espero que venham outros melhores a seguir), fica uma vez mais bem
demonstrado que é possível fazer música de qualidade em Portugal sem cair na tentação
(e porque não dizê-lo, na preguiça) de repetir fórmulas de sucessos anteriores. Era
bom que muita gente que está agora a começar uma carreira musical olhasse com atenção
para este projecto, porque é claramente um exemplo a seguir, senão no conteúdo (porque,
convenhamos, é tarefa quase impossível imitar estes músicos no que respeita à música
que tocam), pelo menos na abordagem que têm em relação ao seu trabalho. Os Gaiteiros
brincam com a música que fazem, mas levam essa brincadeira muito a sério. O público
agradece.
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Macaréu tema a tema
1 - Era não era do
tamanho de um Pardal
Este é o tema introdutório do disco, que serve precisamente para nos explicar o que é
um Macaréu ("...são umas ondas muito altas, da família das pernaltas, e maiores do
que um pardal..."). É um tema em que se nota imediatamente o estilo inconfundível
dos Gaiteiros, não só na música, mas também na letra que revela uma vez mais o sentido
de humor que caracteriza o grupo.
2 - Cantiga de Quadras
Como o próprio nome indica, um tema composto essencialmente por um conjunto de belas
quadras, de Fernando Pessoa, musicadas por Jose Manuel David e cantadas na poderosa voz de
Rui Vaz.
3 - Contra Chula não
há Argumentos
Primeiro tema totalmente instrumental do disco e primeira introdução dos referidos
tubarões que acompanham as gaitas do Paulo Marinho num tema poderoso, escrito por José
Manuel David, que funciona muito bem ao vivo.
4 - Velha Bufelha
Uma lenga-lenga popular musicada e cantada por Carlos Guerreiro, com os restantes
elementos do grupo no coro de acompanhamento (e com uma súbita aparição da tal velha
lá mais para o fim).
5 - Plantei Amores
Um dos melhores temas do disco, este poema musicado de Amélia Muge, que começa e termina
com a sanfona de Carlos Guerreiro, e pelo meio tem uma vez mais a voz de Rui Vaz
intercalada com as gaitas do Paulo Marinho.
6 - O Tejo corre no
Tejo
Mais um poema musicado, desta vez por Carlos Guerreiro, que começa com a trompa de José
Manuel David, e prossegue com um ritmo bem marcado. Apesar da beleza do poema de Alexandre
O'Neill, parece-me o tema menos conseguido do disco.
7 - Quando é Lua Cheia
Outro dos grandes temas do disco, este escrito por José Salgueiro, e cantado ora por Rui
Vaz ora em coro pelos vários elementos do grupo, em que se nota claramente um piscar de
olho ao jazz, nomeadamente no que respeita à percussão (ou não fosse o próprio José
Salgueiro parte integrante do trio de Carlos Barreto). Aliás, nota-se neste disco que,
com a inclusão do Paulo Charneca na banda, Salgueiro fica mais liberto para as
improvisações de que tanto gosta.
8 - Quando Judas teve
Sarampo
Tema popular litúrgico que fala das doenças contraídas por figuras históricas como
Judas, Herodes ou Pilatos, e que termina numa alegra conversa entre os músicos. Mais um
belo exemplo do grande sentido de humor dos Gaiteiros.
8 - Terra de Ninguém
Tema escrito (e cantado) por Carlos Guerreiro, que conta com a colaboração da última
grande novidade deste disco, o convidado especial Pacman (dos DaWeasel) que faz uma
perninha bem ao seu estilo, fundindo de forma excepcional o hip-hop com a música popular,
sem porém por em causa a identidade própria de cada um dos estilos. Sem dúvida (mais)
um tema muito bem conseguido.
10 - Aqui há gato... Quem
me tramou?
Poema de Amélia Muge cujo tom brincalhão assenta que nem uma luva ao sentido irónico
tão comum ao longo de toda a obra dos Gaiteiros.
11 - Canto de Trabalhos
Outro excelente tema do disco que consiste basicamente em Carlos Guerreiro a debitar
pregões de trabalho sobre uma base de tambores e outras percussões. Uma grande homenagem
ao trabalho e esforço populares.
12, 13 - Nordeste e Mbira do
Norte
Dois excelentes temas instrumentais que funcionam muito bem ouvidos de seguida, e onde se
pode comprovar (se é que fosse necessária comprovação) o virtuosismo do Paulo Marinho
nas gaitas. Estes são dos tais temas que acabarão por ser obrigatórios nos concertos.
14 - Rondacalhe
Tema popular instrumental que fecha o disco. Mas claro que com os Gaiteiros não podia ser
tão simples, porque alternadamente com o tema principal, tocado por Paulo Marinho e Jose
Manuel David em flauta, vamos ouvindo aqui e ali umas verdadeiras cacofonias provocadas
pelos restantes elementos da banda!  |