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Antologia
Música Tradicional da Madeira

Viagens sonoras inter-oceanos
Por João Maurício Marques
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O legado musical dos portugueses no Mundo é presenciável em manifestações culturais em vários países de todos os Continentes, desde a Ásia a África, passando pela América. Uma das mais fortes presenças intitula-se 'Ukulele', um dos instrumentos míticos da cultura americana, em geral, e da hawaiana, em particular.

Levado no último quartel do século XIX para terras do Pacífico pelos emigrantes madeirenses, o 'Ukulele' descende directamente do 'braguinha', por sua vez adoptado do cavaquinho luso, vindo de terras minhotas aquando da colonização do arquipélago. Anos depois, o 'Ukulele' voltou à Europa já engrandecido pelos mitos hollywoodescos que o transformaram num dos instrumentos mais célebres em todo o Mundo.

A introdução do 'braguinha' no Hawai ainda não foi totalmente estudada, embora alguns trabalhos a publicar até final de 1998 possam dar mais luzes sobre o assunto. No último quartel do século passado, face à enorme crise que o arquipélago passava em termos sociais e económicos, muitos foram os madeirenses que deixaram a ilha com destino a paragens do Pacífico e Brasil (de referir igualmente que a África portuguesa também contou com muita emigração madeirense, patente em algumas influências locais).


O Ukulele à esquerda foi fabricado por Leonardo Nunes, filho de Manuel Nunes. O da direita, em forma de ananás, foi construído nos anos 30 por Sam Kamaka Jr. antigo aprendiz de Manuel Nunes

Nesse elevado contigente (mais de 20.000 pessoas) estavam muitos músicos, facto que afectou não só bandas e recreios musicais, como também construtores de instrumentos, professores de música e mesmo músicos amadores de vários pontos da ilha da Madeira. Ao Hawai, chegam em 1879 no veleiro Ravenscrag, depois de algumas peripécias na longa viagem de cinco meses, alguns madeirenses que encantam os indígenas utilizando o braguinha que devido às suas reduzidas dimensões e sonoridade foi logo chamado localmente de 'jumping flea' (pulga saltitante).

Dos primeiros madeirenses que lá chegaram, enquanto alguns ganharam a vida como construtores de 'braguinhas' (por exemplo, Manoel Nunes, que curiosamente não sabia tocá-los, pese embora ter sido um dos seus mais afamados construtores e o seu introdutor no Continente americano), outros chegaram mesmo a formar grupos com abastado sucesso local (João Fernandes, Augusto Dias e João Correia criaram um conhecido conjunto de braguinhas que em 1880 tocou para o rei hawaiano King David Kalakaua variadíssimas vezes).

A partir de inícios da década de 80, os construtores madeirenses começam a utilizar outro tipo de madeiras (Kou e Koa) para a construção do 'braguinha', bem como foram mudadas as cordas de metal para tripa, adoptando então o 'ukulele' as suas características distintivas próprias.

A própria afinação do instrumento foi, pouco a pouco, alterada, sendo diferentes as actuais afinações dos dois instrumentos. A ideia de Manoel Nunes, segundo alguns historiadores do 'ukulele' era tornar mais simples a aprendizagem do instrumento, aumentando inclusivamente o tamanho do 'braguinha' e alterando a sua forma.

A introdução do 'ukulele' no continente americano dá-se de forma tão natural que nos anos 20 era um instrumento totalmente adaptado às 'big bands' de jazz, sendo já o nome mais forte da cultura popular hawaiana, contando-se mais de 50 os construtores especializados neste tipo de instrumento, a maior parte deles antigos aprendizes de Manoel Nunes, como por exemplo Samuel K. Kamaka, um dos mais conhecidos construtores de 'ukuleles'.

Pequeno cordofone de 5 cordas, o 'braguinha' também evoluiu de instrumento de acompanhamento por excelência na Madeira para as mãos de hábeis e virtuosos músicos hawaianos, que dele retiraram um potencial que até aí poucos tocadores madeirenses haviam explorado.

Curiosamente, a própria evolução do instrumento é disso prova: enquanto que na Madeira, o 'braguinha' foi quase sempre um par pobre para o 'rajão' e a 'viola de arame' nos 'brincos' (grupos de músicos espontâneos), sendo utilizado essencialmente na música tradicional e popular rural (existem algumas excepções, como o caso de Cândido Drummond de Vasconcelos, compositor funchalense, que criou várias peças para braguinha no século passado), nos Estados Unidos, o 'Ukulele' foi explorado até à exaustão, sendo um instrumento largamente tocado em quase todos os estilos de música, quer a mais popular, quer a mais experimental e vanguardista.

Ainda hoje essa diferença marca a existência dos dois instrumentos, estando o 'braguinha' reduzido apenas a algumas dezenas de músicos madeirenses, enquanto o 'Ukulele' possui em todo o Mundo (com grande destaque para os Estados Unidos e Japão) mais de 200 mil aficcionados filiados em mais de 700 clubes de fans.

Finalmente, 110 anos após a introdução do 'braguinha' no Hawai os dois instrumentos vão encontrar-se num projecto único e histórico. 'Braguinha & Ukulele: a father and son reunion' é um trabalho desenvolvido pela editora madeirense Almasud Records e apoiado por vários músicos americanos que pretende prestar um tributo a esta reunião de culturas distintas. Um encontro que assinala igualmente a reunião de dois mares, o Atlântico e o Pacífico, num ano onde a Expo 98 de Lisboa marca a suprema importância dos Oceanos na história da Humanidade. Voltar ao Topo

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João Marício Marques
João Maurício Marques é um dos fundadores da editora Almasud Records, especializada em música tradicional madeirense. Licenciado em Comunicação Social, foi jornalista dos quadros do Diário de Notícias do Funchal, produtor de diversos programas de rádio sobre world music e música tradicional e autor do livro 'Os faunos do cinema madeirense - 100 anos de história'.
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