As origems da
Guitarra Portuguesa
por Manuel Portugal
(Artigo foi originalmente escrito para
publicação no Jornal de Coimbra)Etimologicamente, a
designação de guitarra advém do vocábulo grego Kythara, que mais tarde os latinos
converteram para Cithara. Conta uma lenda que este nome provém de Cyterón, o nome de uma
montanha situada algures entre a Beócia e a Ática. Mas há quem, discordando desta
opinião, defenda que deriva sim de Cythara, o antigo nome da ilha grega Cerigo, a qual
era considerada como o paraíso da poesia e do amor, e na qual existia um templo dedicado
a Vénus.
Mas, como esta matéria não reúne qualquer consenso, há ainda quem prefira acreditar
que a origem do nome da guitarra remonta à Idade Média, sendo a sua invenção e
construção da responsabilidade de um mouro espanhol que daria pelo nome de Al-Guitar.
Esta corrente diz-nos que a Guitarra portuguesa, tal como a conhecemos hoje, é
de origem árabe. Mas, se é verdade que esta teoria é sustentada por inúmeros adeptos,
é também verdadeiro o facto de que assenta num pressuposto meramente verbal, o qual
compara o nosso instrumento actual à antiga guitarra mourisca, ou sarracenica,
associando-a ao fado.
Diz-nos ainda que esta nossa forma musical de expressão essencialmente popular
(fado) é de origem árabe. Ora, esta teoria é geralmente rebatida com dois argumentos:
é que, por um lado, a guitarra mourisca está na origem de uma linha de instrumentos
completamente diferentes - as mandolas e as mandolinas; sabendo-se, por outro lado, que a
associação da guitarra ao fado é um fenómeno bem mais recente.
A partir de estudos realizados por diversos autores e compositores, como Pedro Caldeira
Cabral e António Portugal, entre outros, parece mais provável que a actual Guitarra
Portuguesa resulte de uma fusão entre dois instrumentos: o Cistro europeu, ou Citara,
utilizado em toda a Europa Ocidental durante o Renascimento, que apresenta uma forma
extremamente semelhante e até, em alguns casos, o mesmo número de cordas e afinações
que a guitarra, e que terá sido introduzido em Portugal no século XVI, sobretudo a
partir de Itália e França, propagando-se a Sul de Coimbra; e a Guitarra Inglesa, aqui
introduzida no século XVIII, no Porto, difundindo-se depois rapidamente a Norte de
Coimbra. Isto poderá explicar as diferenças de construção, de estrutura e de
afinação entre a guitarra de Coimbra, com origem no Porto, e a de Lisboa.
A conclusão que se tira deste estudo é que a evolução da Guitarra se pode
formular a partir de uma teoria baseada nas coincidências existentes entre estes dois
instrumentos - o Cistro e a Guitarra inglesa - dando-se a adopção de elementos de um e
de outro e mantendo-se a sua prática ligada, desde o início, à música de tradição
oral. Tal facto não terá também sido alheio à deslocação da Corte para Coimbra,
sendo bastante provável que estes dois antepassados da guitarra tenham continuado a ser
cultivados entre nós, mesmo depois da época trovadoresca.
Carlos Paredes acrescenta que já antes do Cistro, no Renascimento, a nossa guitarra vai
encontrar as suas origens na Cítola, instrumento da Idade Média. E, tentando definir com
mais precisão esse «instrumento musical a que chamamos hoje guitarra portuguesa»,
diz-nos que «foi inventado em Inglaterra na segunda metade do século XVIII», surgindo
como «resposta à necessidade de obter do Cistro uma sonoridade mais emotiva e volumosa,
de acordo com as transformações verificadas no gosto musical da época, a apontar para o
Romantismo (...) Foi-lhe dado o nome de Guitarra Inglesa».
Mas Paredes introduz um dado novo ao dizer que, se na aparência, este
instrumento, pouco se distinguia do Cistro, «já dele profundamente diferia nas
qualidades essenciais». Segundo um texto do mesmo compositor, este novo instrumento teve
uma aceitação rápida e apaixonada, especialmente pela juventude de diversos países
europeus, nomeadamente em Portugal, nas cidades do Porto, Coimbra e Lisboa. Abandonada, no
resto da Europa, entre finais do século XVIII e princípios do século XIX, terá
sobrevivido até aos nossos dias apenas na Escócia e em Portugal, aqui com o nome de
Guitarra Portuguesa, instrumento que se adaptou às expressões da música popular urbana,
como é o caso do Fado de Lisboa ou da Canção de Coimbra.
E foi em virtude do sucesso que o instrumento teve entre nós que o mestre António da
Silva Leite publica, em 1796, no Porto, o seu "Estudo de Guitarra", com vista a
facilitar a aprendizagem aos seus inúmeros discípulos. Esta obra confirma a origem da
guitarra a partir da Inglaterra, onde eram construídas por um artesão de nome Simpson,
passando então a ser copiadas e fabricadas em Portugal pelo artesão portuense Luís
Cardoso Soares Sevilhano.
Estes factores terão contribuído para a vasta difusão da guitarra na cidade
nortenha, onde era usada como instrumento de sala, em substituição cravo e outros
instrumentos do género. Segundo Silva Leite, a guitarra era «assaz suficiente para
entretenimento de uma assembleia, evitando o incómodo convite de uma orquestra».
Esta guitarra, que Mário Sampayo Ribeiro acredita ter sido introduzida pela
colónia inglesa no Porto, passou a desempenhar um papel social e musical muito
importante, desde o início do século XVIII. Segundo Sampayo Ribeiro, seria já nos
finais desse século que a guitarra se «aportuguesaria» e se difundiria por todo o
país, a partir da "cidade invicta", começando então a substituir a viola que
era, até aí, um instrumento de grande popularidade. Será a partir desta altura que a
guitarra sofre reajustamentos diversos, com vista a melhor se adaptar às raízes da
música tradicional portuguesa.
É então que um construtor anónimo do século XIX, respeitando o instrumento
anterior, adapta as cabeças da viola de arame à guitarra e, como estas tinham doze
cordas, viu-se obrigado a alterar o encordoamento, redistribuindo-as em seis ordens de
cordas duplas e adicionando cordas de aço aos bordões. Esta foi, seguramente, a maior
transformação de todas, e aquela que mais terá contribuído para que a guitarra
adquirisse a especificidade que lhe conhecemos hoje, com doze cordas e cravelhas.
Em Coimbra, na opinião de Armando Simões, a construção de guitarras remonta aos finais
do século XIX e primeiro quartel do século XX, sendo as primeiras guitarras trazidas por
estudantes do Porto e de Lisboa, mesmo quando a indústria da nossa cidade já as
fabricava. Segundo este autor, a Guitarra de Coimbra passa a distinguir-se da de Lisboa
já nos finais do século XIX, sendo exemplo deste facto a guitarra de Augusto Hilário
que, apesar de construída em Lisboa, por A. Vieira, tinha a escala mais comprida, para o
mesmo número de pontos, a ilharga mais estreita e passou a afinar dois pontos abaixo do
lamiré, perdendo o brilho do som que até aí apresentava, mas ganhando, em
contrapartida, uma sonoridade mais grave, mais suave e melodiosa, bem ao estilo da música
de Coimbra. Outro magnífico instrumento que podemos encontrar em Coimbra, nos finais do
século XIX, é a guitarra de Antero Alte da Veiga, da autoria de Augusto Vieira e com a
voluta esculpida por Ventura da Câmara. Esta, tal como outros instrumentos que vão da
mesma época até ao começo do nosso século, apresentava outra curiosidade, tendo no
tampo dois orifícios acústicos.