Francisco Naia
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Lançamento
Francisco Naia
Do Cante alentejano ao Canto de Intervenção
Lisboa, CCB - Espaço 7 às 9, dia 31 de
Março de 2003, 19h
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .Cantes d'além Tejo é o novo disco de Francisco Naia - professor,
cantautor e alentejano. Ligado desde cedo à música e à sua consciência social, é um
músico marcado pelo período estudantil de 60 e que hoje não tem medo de gostar das
estéticas modernas.
Depois de uma produção algo atribulada, finalmente está pronto o disco que marca o
regresso do Cantautor Francisco Naia, neste caso acompanhado de vários músicos: João
Pimentel nas guitarras; Rui Curto, da Brigada Vitor Jara, no acordeão; Mário Gramaço,
no Sax e flauta; João Penedo no Contrabaixo e Quiné, também da Brigada Vitor Jara na
bateria e ritmos.
Desde muito novo, Francisco Naia entra em contacto com a música, que era executada pelo
pai e pelos seus irmãos. Mais tarde estuda solfejo e canto e, em 1956, em Aljustrel tem
um professor diferente, que falava em dignidade, liberdade, na luta dos mineiros, e que o
levou a cantar fados e baladas de Coimbra. Esse homem chamava-se José Afonso. Começa
então e escrever e a fazer músicas.
Caloiro durante a crise de 62, cumpre no final desse ano o serviço militar. Durante cerca
de quatro anos, em várias regiões de Angola, assiste de perto ao papel que a música vai
ter na sensibilização dos militares. Canta, toca, desenvolve grupos corais, tem
contactos com músicos e poetas angolanos do grupo do «Imbondeiro», e
nomeadamente Alexandre Daskalos, de quem vem a musicar poemas.
Após o regresso a Portugal, trabalha no escritório das oficinas dos Caminhos de Ferro do
Barreiro onde tem um contacto directo com o mundo operário, ao mesmo tempo que na
Faculdade de Letras, participa na crise académica de 69.
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Os alunos falam com o professor
Entrevista a Francisco Naia
Os alunos
de Comunicação da turma 7 do 11º Ano da Escola Secundária Elias Garcia, em Almada,
entrevistaram Francisco Naia, também professor naquele estabelecimento de ensino. Daqui
resultou uma conversa calorosa e simpática, onde o cantautor fala do seu percurso musical
e académico.
EG- Em que altura da sua vida
decidiu enveredar pela carreira musical?
FN- Não enveredei por uma carreira musical, enveredei
foi por um determinado estilo de vida, influenciado talvez por ter um pai Maestro (já
falecido) que me ensinou música a mim e aos meus irmãos mais velhos, chegando mesmo a
formar um grupo. A minha irmã Elizete Tonicher foi a primeira tonicha da
rádio. E foi no meio deste ambiente familiar que eu comecei a ter gosto pela música,
além disso, como alentejano que sou tenho a musicalidade dentro do corpo. O meu pai
ensinou-me a tocar viola, e aos 13 anos piano. Se naquela altura o país fosse diferente,
eu logicamente teria seguido uma carreira musical teria ido para o conservatório. Mas
como tinha uma certa propensão para o estudo das línguas estudei, francês, inglês,
alemão, italiano, espanhol, e acabei por me licenciar em línguas germânicas, portanto
inglês e alemão que é a minha especialização, todavia o meu encanto sempre foi o
cantar. Quando vim para Lisboa estudar, fiz com uns amigos um dueto de estudantes onde
cantávamos Fados de Coimbra e assim contactei com um diferente tipo de música. Depois
fui para a tropa e, quando regressei, dediquei-me à música. Durante a faculdade,
participei nos movimentos estudantis de 69 a 72. Antes do 25 de Abril de 74, andávamos
com as violas às costas a fugir à policia, cantávamos: Zeca Afonso, Adriano Correia de
Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, Francisco Fanhais, eu (Francisco Naia), e o
António Macedo, que tinha aquela canção:
Canta, canta, amigo canta,
vem cantar a nossa canção
A seguir ao 25 de Abril, cantou-se muito nas manifestações. Era uma forma
muito social de combater o Nacional Cançonetismo, gravámos discos
eu, por exemplo,
gravei 12 discos em LP. A partir daí uns foram desistindo, e eu ainda continuo, porque
acho que tenho uma grande afinidade com a música, e acho que esta é uma espécie de arma
que eu tenho para protestar, para contestar aquilo que não acho correcto.
EG- Que tipo de
música prefere?
FN- Gosto muito do canto lírico, gosto das músicas
do Bocelli, música irlandesa, música solene, músicas actuais, como por exemplo:
Garbage, Offsprings, Cors, Cramberies, Radio Hat! Enfim gosto de todo o tipo de música,
actualmente os Offspring e os Radio Hat têm músicas extraordinárias, também adoro a
Madonna, isto já para não falar dos cantores da minha geração, sendo eu um indivíduo
dos anos 60, essa música para mim é tudo.
EG- Que instrumentos
musicais utiliza habitualmente?
FN- Eu toco guitarra, para me acompanhar a
cantar; utilizopiano para compor, porque eu também sou compositor, gosto de escrever,
fazer poemas para compor musicalmente, embora também componha poemas de outros poetas,
alguns dos quais conheci na tropa! Já musiquei poemas de Joaquim Pessoa, Eugénio de
Andrade e fiz música para teatro.
EG- Tem algum CD
editado?
FN- Tenho um disco que era para sair em Março/Abril, mas
houve um pequeno problema com o estúdio, uma mudança de instalações e o disco
atrasou-se.
EG- Como se chama o
CD?
FN- Chama-se Cantares de Além Tejo, e é
baseado num trabalho que eu fiz; não sei se sabem, mas eu fui o último indivíduo a
cantar na EXPO98, e com isso recebi um diploma.
EG- Costuma
participar em muitos espectáculos?
FN- Sim, de um modo geral temos muitos espectáculos,
promovidosprincipalmente por Câmaras Municipais, Bibliotecas, etc.
EG- Canta em grupo ou
a solo?
FN- Canto com um grupo que é formado por um
guitarrista, chamado João Pimentel que é professor de História, um acordionista, da
Brigada do Victor Jara, chamado Rui Curto, que é professor de Matemática, um
contrabaixista que se chama João Penedo que é de um grupo chamado 9.9, e também estou a
tocar com o Mário Gramaço de Almada que é um dos nossos grandes saxofonistas. Estes
são os músicos que me acompanham.
EG- Como se chama o
grupo?
FN- O nome do grupo é FRANCISCO NAIA
QUINTETO, porque eu assumo-me como solista.
EG- Gostaria de
leccionar educação musical em vez de línguas?
FN- Não, de maneira nenhuma. Eu não tenho essas
vertentes, gosto muito de ser professor de línguas (sou um linguista), qualquer língua
para mim é importante, mas principalmente sou um cultor da língua portuguesa.
EG- O que acha da música
portuguesa?
FN- Acho que a música portuguesa é surpreendente,
tirando normalmente aqueles indivíduos que jogam no facilitismo e miúdas que cantam sem
voz, que jogam principalmente à custa do seu físico; acho que esse tipo de música joga
mais pelo erotismo do que pela qualidade.
Noutras vertentes, há, de facto, outros grandes grupos, gosto dos Santos e
Pecadores, dos Xutos e Pontapés, dos UHF
Estes grupos que já têm algum tempo e
já têm alguma experiência. Também gosto de alguns grupos novos que apareceram agora
por exemplo, o João Pedro Pais, que há-de ser um grande cantor, já para não falar de
Maria Viana. Não desgosto das Boysbands, algumas delas até não estão más, uma
Boysband embora não pareça dá muito trabalho. Das Girlsbands gosto dos Santa Maria.
Também gosto dos Silence 4, Hands on Approch, conheço-os pessoalmente, já fiz
espectáculos com eles. E pronto acho que a música portuguesa a nível de solistas, está
a ficar boa.
EG- É muito difícil
manter um grupo?
FN- Manter um grupo tem os seus inconvenientes e tem
as suas vantagens, manter um grupo privativo é difícil porque os músicos naturalmente
e, sobretudo aqueles que não sobrevivem da música têm que ter outros projectos. Os
músicos com que eu toco têm outros projectos, inclusivé eutenho outros projectos. Ainda
não lhes dissemas tenho um recital para canto e guitarra com poesia tradicional e
medieval portuguesa e ainda com arranjo de música tradicional Alentejana que é o chamado
canto campaniço; é muito bonito e muito antiga a maneira de cantar, eu sou um cultor da
música Alentejana, porque realmente é uma música muito sui generis.
EG- O que pensa dos
músicos portugueses que cantam em inglês?
FN- Enquanto músicos eu aprecio o trabalho musical
deles, agora, enquanto cantarem em inglês, desde que os poemas estejam bem feitos.
Eu acho que nós devemos procurar cantar a nossa música dentro das nossas ambiências e
dentro das nossas vivências, é um pouco como esses grupos de garagem, esses chamados
grupos do HEAVY, por exemplo, os GOGSPEL, eu gosto desse grupo, são excelentes músicos..
hoje em dia há uma liberdade e como músicos podem tocar tudo
de qualquer das
maneiras há os bons trabalhos e os maus trabalhos. Escola
Secundária Elias Garcia
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