Lisboa
Afirmar Cantigas do Maio
Lisboa, Aula Magna, dia
5 de Julho de 2003
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. . .Depois de
cancelado o Cantigas do Maio deste ano, a Associação José Afonso anuncia dois concertos
para o dia 5 de Julho. "Afirmar Cantigas do Maio" é o nome do evento que
contará com a presença da galega Uxia e os irmãos Samir e Wissam Joubran, da Palestina.
Por divergências orçamentais com a Câmara Municipal do Seixal, a
Associação José Afonso decidiu não realizar o Festival Cantigas do Maio deste ano. Em
causa estava um corte ao orçamento de cerca de 50%, o que - segundo os organizadores -
colocaria em causa a continuidade deste festival, de resto inserido numa rede
Intermacional de Festivais de Música Tradicional.
Mesmo assim, a Associação José Afonso, decidiu apresentar ao
público dois concertos num só dia e resolveu chamar-lhe "Afirmar" Cantigas do
Maio - fazendo adivinhar que é possível o regresso do festival já para o próximo ano,
eventualmente noutra cidade.
No cartaz vamos ter a voz de Uxía, também uma
das mais importantes referências da actualidade, na preservação da cultura Galega. A
encerrar a noite vão estar, pela primeira vez em Portugal, os irmãos Samir e
Wissam Joubran da Palestina, dois mestres do alaúde.
Uxia
Uxía é uma amiga grande e de longa data das Cantigas do Maio, onde esteve pela
primeira vez em 1997. Voltaria mais algumas vezes a subir esse mesmo palco mas como
convidada, por exemplo de Maria del Mar Bonet no ano de 1998.
A sua condição de raiana levou-a a manter uma relação especial
com Portugal e a sua cultura, a sua música e os seus intérpretes: Cramol, Filipa Pais,
Júlio Pereira, Dulce Pontes, João Afonso, Fausto, são alguns dos nomes que Uxía tem
chamado para os seus concertos e discos.
Depois de uma passagem pelo grupo Na Lúa com o qual gravou dois
CDs, Uxía retomaria em 1991 a sua carreira a solo. 1995 viria a ser um ano decisivo para
si com a edição de "Estou Vivindo no Ceo", que foi alvo de grandes elogios
tanto por parte da crítica nacional como internacional.
Em 2000 e depois de muitas esperas, falsos alarmes e uma gestação
de dois anos, um dos discos mais ansiados na Galiza vê finalmente a luz do dia:
"Danza das Areas, editado pela Virgin. Este último CD é fruto de uma viagem
geográfica e interior de Uxía. Uma viagem em que foi acompanhada por Susane Seivane,
Dulce Pontes, Maria del Mar Bonet, João Afonso, Filipa Pais, Budiño e muitos outros
companheiros.
A sua carreira artística está cheia de acontecimentos, que
independentemente das suas numerosas participações em discos próprios ou colectivos, a
levaram à realização de diferentes projectos nos quais a mulher e a tradição foram a
base do seu trabalho. Entre estes projectos destacam-se Mulleres a Viva Voz,
Bailía das Frores e Sons da Fala, O Cantar das Galegas, Nai
Terra ou o mais recente Son delas, o cantar das mulleres.
Embora se confesse uma amante da tradição, Uxía vê-a com vida,
com essência, uma tradição que evolui e se funde com outras culturas, numa viagem que
vai do particular para o universal.
Militante da defesa e divulgação da cultura galega, tem tido ao
longo dos anos uma intensa actividade cultural seja na realização de programas de
rádio, na edição de revistas, na direcção de associações culturais, na
dinamização de grupos musicais como é o caso de As Cantadeiras do Berbés, mas também
como programadora musical ou como conferencista sobre a história recente da música
galega.
Por isso falar de Uxía não é só falar de uma das mais
importantes vozes galegas, é falar também de uma das mulheres que com mais empenho tem
lutado na Galiza por um espaço para a voz, para a sensibilidade, para o feminino plural,
para a música cantada em galego. Uxía é sem dúvida o referente vocal mais importante
da actualidade na Galiza. Uxía é, foi e será uma homenagem permanente à cultura e
música galegas.
Samir e Wissam Joubran
A encerrar a noite vão estar pela primeira vez em Portugal, os irmãos Samir e
Wissam Joubran da Palestina, dois mestres do alaúde. São filhos de um conceituado
construtor de alaúdes, Hatem Joubran, cujas pisadas o seu filho Wissam seguiu, sendo
actualmente o primeiro construtor de alaúdes do mundo árabe a frequentar o prestigiado
Instituto António Stradivari em Itália.
Wissam, o irmão dez anos mais velho, compôs música para diversas
peças teatrais e filmes palestinianos, acompanhou em recitais o mundialmente conhecido
poeta palestiniano Mahmoud Darwish e foi o primeiro músico a beneficiar de uma bolsa
atribuída pelo Parlamento Internacional de Escritores, no âmbito do programa de asilo a
escritores, que actualmente usufrui também em Itália.
Os concertos de Samir e Wissam Joubran contam sempre com muita
improvisação, são por isso mesmo únicos. Como explica Samir, " procuramos sempre
construir um clima de ligação com o público e por isso cada concerto é único de
acordo com a relação que se estabelece com ele. Durante uma hora procuramos sair do
sítio em que estamos, procuramos criar uma hora de mundo diferente".
O seu terceiro e mais recente disco, depois de Taqâsim (1996) e de
Sou Fahm (2001), foi editado pela Harmonia Mundi e tem como título Tamaas que Samir
explica assim: (...) Tamaas é uma palavra que na verdade evoca uma relação
musical que eu tenho com o meu irmão quando tocamos juntos. Tamaas é o
contacto, físico e simultaneamente sentimental. Eu e o meu irmão Wissam
temos mais do que uma simples relação de interacção musical quando tocamos juntos.
Vamos em direcção a algo e esse algo é o tamaas! Mas tamaas também tem um outro
significado, é a linha de demarcação, o ponto de contacto na linha de fronteira. E
evidentemente que também foi a pensar nisso que escolhi este título.