Porto e Lisboa
Canto Nono
A cidade a oito vozes
Maio 2003 Dia 3 Porto, Rivoli Teatro Municipal - Grande Auditório, 21:30h | Dia
7 Lisboa, Centro Cultural de Belém - Pequeno Auditório, 21:30h
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. .Este espectáculo
surge da ideia de transmitir toda a cidade através dos seus sons, dos ruídos de uma rua,
dos lugares e das gentes, das actividades e das suas histórias. José Mário Branco
dirige as oitos vozes do Canto Nono, que fazem os sons da cidade.
Foi preciso pesquisar, procurar nas vozes (e apenas nas vozes, sem
outros recursos sonoros) o apito, o relato de futebol, o barulho de uma carruagem a chegar
ao cais, o movimento mecânico da estrada, os sotaques, os risos sem artifícios,
sem apoios que não o virtuosismo do Canto Nono.
É a cidade contada (cantada) à cappela, por este grupo portuense
que se distingue pelo uso da voz como instrumento pleno e único, a dispensar outros
acompanhamentos. Da ideia passou-se ao palco: a digressão dos «Sons do Porto» começa
agora no Grande Auditório do Rivoli Teatro Municipal, para depois procurar outras
paragens.
Na bagagem vão episódios, sítios, personagens, passado e
presente de um burgo, de um espaço temporal que várias gerações conhecem e reconhecem,
por entre sorrisos e comoções. Música, emoção e humor, num espectáculo que assinala
a apresentação do registo discográfico deste projecto original, onde ao grupo vocal
Canto Nono se juntam José Mário Branco e Carlos Tê.
É um espectáculo talhado para ter êxito, mas isso não lhe
belisca a qualidade. Em cerca de hora e meia, o espectáculo transporta-nos pela cidade do
Porto, visitando alguns dos seus lugares mais emblemáticos, captando no caminho o falar
das suas gentes, desde o típico humor tripeiro à snobeira de tios e tias, e o barulho
fervilhante das ruas, atulhadas de trânsito, comércio e obras.
A viagem é feita a bordo de um táxi, apanhado em Campanhã por
uma senhora que chega à cidade. Isto num plano ilusório, porque o espectador acompanha
tudo sem sair da sua cadeira, na plateia do Teatro Helena Sá e Costa. É transportado
pelas vozes do Canto Nono, que se encarregam de reproduzir os sons do quotidiano e
interpretar o repertório musical, inscrito numa memória do Porto que percorre grande
parte do século passado e vem até aos dias de hoje. Muitas vezes, de resto, tempos e
referências diferentes coincidem no mesmo fio de acção, como por exemplo quando a
passageira do táxi sai na Casa da Música e ouve, com o ruído de fundo das obras, o tema
genérico de Missão Impossível, sucedido por um excerto da ópera O Amor Industrioso, a
simbolizar a vitória da música sobre a polémica.
Como facilmente se deduz, este voo rasado sobre a história recente
do Porto (...) combina humor e crítica de forma subtil e inteligente, ou não fosse ele
dirigido por José Mário Branco, cujo papel não se confina à parte musical,
transbordando para os departamentos de texto e dramaturgia, partilhados com Carlos Tê.
Aos dois cabe, aliás, a autoria de alguns dos temas interpretados pelo Canto Nono,
nomeadamente os inéditos que compõem a suite Porto 50, feita de encomenda para o
espectáculo com o intuito de transmitir as suas visões pessoais sobre o que era a cidade
em meados do século XX.
Mas também o Porto dos anos 30 surge retratado, aí já pela
escrita de Germano Silva, um dos mais apaixonados historiadores do burgo. Como não
poderia deixar de ser, este trajecto inter-épocas - que adquire sequência através da
fórmula dramatúrgica do táxi, cujo rádio, sempre ligado, é igualmente um meio de
"transporte" - passa pelo 25 de Abril de 1974, assinalando a sua importância na
transformação do País e, em particular, da cidade.
Antes de terminar, o espectáculo visita ainda a Ribeira actual
(embora evoque o clássico Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira) e as festas de S. João.
Só então Inês Salselas, Luísa Rodrigues, Amélia Lopes, Manuela Brito, Rui Barros
Silva, Sérgio Ferraz, Paulo Santos Silva e Fernando Pinheiro, elementos do Canto Nono,
podem descansar as gargantas.
Adaptação de um texto publicado no
Diário de Notícias.