Cuba
Morreu Compay Segundo
95 anos de "son" cubano
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. Compay Segundo tinha
o sonho de chegar aos 116 anos, a idade com que morreu a sua avó. Mas dia 14 de Julho,
aos 95 anos, acabou por ceder à doença que nos últimos messes o obrigou a cancelar
todos os concertos agendados no estrangeiro e em Cuba.
Maximo Francisco Repilado Muñoz de seu verdadeiro nome, nasceu a
18 de Novembro de 1907 em Siboney, Santiago de Cuba. Torna-se Compay Segundo apenas em
1948, ano em que fundou o duo «Los Compadres», no qual actuava como «segunda voz»,
conhecida precisamente em Cuba por «Segunda».
No final da década de 50 deixa o duo e inicia uma carreira a solo,
já com o nome com que viria a celebrizar-se.
Tinha treze anos quando começou a aprender música e até este
ano, 2003, nunca deixou de cantar e tocar. Tendo o famoso chapéu branco como imagem de
marca, galanteador por excelência, inventou mesmo um instrumento, o «harmónico», uma
guitarra de sete cordas (as normais contam com seis), em que a terceira (a nota sol) surge
dobrada uma oitava acima.
Memória viva do «son», depositário de um século de tradição
musical cubana, autor de vários peças de antologia - como «Chan-Chan», imortalizada
também pelo seu amigo Pablo Milanés - Compay Segundo passou ao lado do tempo para
treinar o suficiente e impor o seu estilo.
Filho de um andaluz e de uma crioula, criou e dirigiu uma orquestra
com um estilo e uma «batida» muito próprios.
A voz rouca e o seu estilo inimitável destacaram-se sobretudo em
Havana a partir de 1934. Com ele, o «son», música rural do fim do século XIX, ganhou
então um novo ídolo.
Na mesma altura conhece o «pai da salsa moderna», Bény Moré, e
parte imediatamente para o México, onde gravará o seu primeiro disco, ainda de 78
rotações. Desde então, gravou mais de 100 originais e as suas músicas são cantadas
por todo o mundo.
O último concerto foi no passado mês de Fevereiro, no México. Um
espectáculo onde Compay Segundo tocou alguns dos seus grandes êxitos.
Sempre impecavelmente vestido, desafiando o tempo, Compay Segundo
nunca fez segredo da sua alegria de viver: o charuto, as flores, o rum e as mulheres.
Deixa cinco filhos, das várias dezenas de mulheres que assume ter tido.
Enrolador de charutos
Apesar de ter dedicado mais de oitenta anos à música, a fama mundial só chegou
à seis anos com um Grammy atribuído ao filme/documentário «Buena Vista Social Club»,
dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders.
Compay esteve muitos anos no esquecimento. Com o triunfo da
revolução cubana, em 1959, com o fecho dos cabarés em Havana, Compay Segundo teve de
interromper as actuações nocturnas e esteve mesmo a enrolar tabaco numa fábrica cubana
durante vários anos.
Na década de oitenta, Compay, que significa «companheiro» na
linguagem típica do oriente cubano, voltou à música em Cuba e a participar em concertos
em Espanha, Estados Unidos e Portugal.
Compay "carregava com ele a história da
música cubana"
Ainda no ano passado, Luís Represas tocou com Compay segundo. Ouvido pela TSF, o
ex-vocalista dos Trovante lembrou o homem que atingiu a fama aos 80 anos, quando já não
esperava.
«Compay Segundo, de repente, atingiu esta universalidade mas era
um homem que carregava com ele a história da musica cubana. Ele viveu, nos anos 40 e 50,
a grande explosão da música cubana com grandes nomes como Célia Cruz e Benni Moré,
entre outros»,
«Não ficou conhecido, na altura, mas foi inovador. Compay
reinventou um instrumento, o três, que é a guitarra cubana, acrescentando-lhe mais um
par de cordas», recordou Luís Represas.
O músico português afirma que no contacto que teve com o cubano
aprendeu a ter «humildade, respeito, ternura e carinho por aquilo de que faz». «Compay
chegou aos 94 anos com um espírito extremamente jovial e com um sentido de humor
demolidor», conclui Luís represas.