Lançamento
Carlos Paredes
Movimento - Platinum Collection
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A EMI coloca agora no mercado a obra
fundamental de Carlos Paredes, remasterizada e reunida numa "Platinum
Collection" - um CD triplo que reúne as obras fundamentais "Guitarra
Portuguesa", "Movimento Perpétuo" e "Na Corrente".
Poder-se-ia resumir a vida de Carlos Paredes, do seu nascimento em Coimbra a 16 de
Fevereiro de 1925 ao seu falecimento em Lisboa a 23 de Julho de 2004, a poucos parágrafos
que pouco ou nada nos diriam sobre a genialidade que a sua música sempre manifestou. De
facto, seria difícil encontrar na discrição de que sempre fez prova, na modéstia que
sempre pautou as suas declarações, as raízes da ruptura criativa que o seu trabalho e o
seu talento trouxeram à música portuguesa. Carlos Paredes era um homem tímido que não
conseguia processar os elogios que cada trabalho seu recebia, porque para ele a música
era uma entidade viva que apenas fazia sentido no diálogo com o acompanhante e com o
público, uma entidade em contínuo processo de evolução e crescimento, em que cada
interpretação ficava sempre aquém do objectivo pretendido.
Esse perfeccionismo de exigência quase maníaca terá, certamente, sido herdado do avô
Gonçalo Paredes e sobretudo do pai Artur Paredes, seu mestre na guitarra portuguesa,
fundadores de uma tradição coimbrã do instrumento, que de algum modo lhe fixou os
limites e codificou as regras e sabe-se que a ruptura entre pai e filho se ficou a
dever precisamente a um preciosismo perfeccionista em que Artur se mostrou descontente com
a interpretação de Carlos do seu arranjo da Balada de Coimbra de José
Elyseu. Contudo, essa ruptura pessoal define bem a ruptura criativa e geracional de Carlos
Paredes não apenas com a tradição da guitarra portuguesa mas também com a própria
tradição da música portuguesa: desviando o foco do tecnicismo respeitador dos códigos
para uma liberdade criativa e formal onde a interpretação é, em si própria, uma arte
de (re)criação.
Ao longo da sua carreira, aliás, Carlos Paredes nunca tocou a mesma peça de duas
maneiras iguais, o que aliás se reflecte de modo peculiar na sua parca discografia, onde
os mesmos temas ou motivos melódicos surgem repetidamente alterados e retrabalhados, num
constante work-in-progress muito semelhante à abordagem de standards pelos
músicos de jazz, usando o tema como mero mote para novas excursões criativas. Mas, ao
mesmo tempo, Paredes veio também dar uma nova carta de nobreza à guitarra portuguesa ao
reivindicar uma genealogia erudita para um instrumento maioritariamente afecto à música
popular, investigando as suas origens, estudando as suas sonoridades, pesquisando o
escasso reportório existente.
Na obra de Paredes coexistem o sagrado e o profano, o popular e o erudito, numa harmonia
de contrários como raramente se terá visto na criação musical portuguesa. E tudo isto
sem nunca necessitar de palavras, bastando apenas a sonoridade inconfundível que
arrancava de um instrumento de reputação difícil e técnica exigente, para o qual
parece ter sido criado o bordão quem tem unhas é que toca guitarra. É certo
que Paredes começou a tocar guitarra com o seu pai, mestre dos mestres, à tenra idade de
4 anos, e que mesmo sem nunca directamente depender dele para sobreviver durante
muito tempo nunca abandonou o instrumento ao longo da sua vida adulta, até a
doença que lhe foi diagnosticada em inícios dos anos 90 lho retirar violentamente das
mãos. Mas isso, por si só, nunca explicaria a alma que Paredes soube emprestar à
guitarra, o modo como ele a fez cantar e descrever uma alma portuguesa lírica e pujante
como nunca antes havia sido ouvida e, arrisco-me a dizer, como não voltará a ser
ouvida.
Ouça-se o primeiro álbum que Paredes gravou e primeiro dos três incluídos nesta
Platinum Collection , esse Guitarra Portuguesa de 1967 que é hoje um dos clássicos
absolutos da música portuguesa, qualquer que seja a gaveta onde se queira arrumá-lo.
Ouça-se o lirismo ora terno ora possante que sai daquelas notas, ouça-se os voos
melódicos, as torrentes de emoção que se derramam em cascata da guitarra mágica de
Paredes solidamente ancorada na viola do inseparável Fernando Alvim. Ouça-se a
sofisticação desta música cuja simplicidade é apenas aparente, e reconheça-se nesta
colecção de inspiradas miniaturas melódicas um talento onde a composição e a
interpretação são não apenas inseparáveis como complementares: por mais fiel que
possa ser a interpretação de outro guitarrista, dificilmente se conseguirá reproduzir a
delicada energia com que Paredes se lhes entrega.
Quando Guitarra Portuguesa é editado, em 1967, Paredes já havia gravado e publicado
discos, em alguns casos como acompanhante (com seu pai Artur e com o cantador coimbrão
Augusto Camacho), mas mantinha-se um verdadeiro OVNI na cena musical e guitarrística
nacional onde as composições de guitarristas eram variações sobre motivos ou
modos fadistas pré-existentes, Paredes compunha do zero; onde os guitarristas sobreviviam
em grande parte como acompanhadores, Paredes era um solista cujo gosto de liberdade
dificilmente se dava com os coletes-de-forças regrados. Essa lateralidade face às
correntes dominantes da guitarra explica o efeito-choque e a ruptura que Paredes trouxe;
primeiro com as suas composições para cinema nomeadamente para os filmes
fundadores do Cinema Novo que foram Verdes Anos e Mudar de Vida, de Paulo Rocha e
depois com Guitarra Portuguesa e com o seu segundo álbum de originais, Movimento
Perpétuo, de 1971 (segundo dos três álbuns aqui incluídos), cuja edição foi
acompanhada por um single com versões dos standards coimbrões Balada de
Coimbra e Canção de Alcipe, aplicando com idênticos resultados a sua
infinita sensibilidade interpretativa a material alheio.
Paredes não gostava do estúdio de gravação e isso poderá, em parte, explicar a
escassez de gravações em nome próprio: até à sua retirada forçada em 1993,
contaram-se três álbuns completos em seu nome exclusivo (Guitarra Portuguesa, Movimento
Perpétuo e, em 1988, Espelho de Sons), alguns temas soltos e sobras espaçadas,
participações esporádicas em discos de Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo,
Luiz Goes e Madredeus e álbuns de colaboração com António Victorino dAlmeida,
Cecília de Mello, Charlie Haden e Manuel Alegre. A frieza e rigidez do estúdio, a
presença do microfone constrangiam Paredes, como se fossem uma jaula que cristalizava as
suas interpretações e as menorizava; a audição das gravações revelava
invariavelmente falhas, imperfeições imperceptíveis ao ouvido médio mas que não
escapavam ao artista.
Essa insatisfação acaba por estar na origem do terceiro álbum aqui incluído. Na
Corrente, publicado em 1996, é uma recolha de raridades (o single de Balada de
Coimbra) e inéditos, entre os quais pela primeira vez em disco o material
completado em 1973 para o álbum que seria o sucessor de Movimento Perpétuo. A
Montanha e a Planície, Dança dos Camponeses, Dança dos
Montanheses, Os Senhores da Terra, Em Memória de uma Camponesa
Assassinada e Sede e Morte compunham uma suite a que Paredes chamou
Fábula, mas a interrupção das gravações remeteu durante muito tempo os
temas para a prateleira dos inéditos em disco pelo menos sob esta forma. Porque,
fiel à sua constante necessidade de movimento, Paredes nunca largou estas peças, que foi
retrabalhando consecutivamente em palco, atribuindo-lhes novas designações, gravando-as,
sob outras formas, primeiro num álbum de edição exclusiva na Alemanha de Leste, O Oiro
e o Trigo, depois ao vivo no Concerto em Frankfurt de 1982, finalmente em Espelho de Sons.
Prova definitiva do movimento perpétuo que inquietava Carlos Paredes e que
sempre o perseguiu durante uma carreira demasiado breve, ao descobrir novas variações e
novas leituras para estes seis temas e para um sétimo inédito contido em Na
Corrente, O Fantoche, sobra de Movimento Perpétuo que também seria retomada
em discos posteriores. Para Carlos Paredes, que se definia modestamente como autor de uma
pequena música por oposição à grande música que os
compositores eruditos nos legaram, a definição de génio era algo que estava vedado a um
mero aluno em constante e contínua aprendizagem como ele era. Paradoxalmente, é essa
modéstia essa ânsia de fazer melhor que o impediu de nos ter legado mais do que
uma mão-cheia de registos que dele faz o Mestre sem paralelo nem igual que estes
três discos nos revelam.
Jorge Mourinha Janeiro de 2005