Itália
Bonifica Emiliana Veneta
Variabile/NaturaleDepois de Apotropaica, o primeiro álbum dos italianos Bonifica
Emiliana Veneta (BEV), aparece agora "Variabile/Naturale" - um disco que tem a
difícil missão de confirmar este colectivo nos já muito povoados cenários da música
tradicional europeia. As dúvidas desfazem-se: o grupo veio para vencer o desafio.
Por João Maia
Apesar de não ser tão conhecido como outras bandas tradicionais italianas, como
por exemplo, os extintos La Ciapa Rusa ou os Barabán, o agrupamento Bonifica Emiliana
Veneta (BEV) conseguiu conquistar um lugar de destaque na música tradicional europeia com
o seu álbum de estreia 'Apotropaica' (que já teve destaque neste espaço). Não é,
portanto, de estranhar, que algum tempo depois nos voltassem a brindar com um segundo
álbum de originais, intitulado 'Variabile/Naturale'.
Confesso que estava algo expectante em relação a este álbum, porque (tal como
tive oportunidade de escrever na altura) gostei bastante do primeiro álbum. No entanto
fiquei algo desapontado quando escutei pela primeira vez este 'Variabile/Naturale',
essencialmente devido à falta da sanfona, instrumento que muito aprecio, e que, no álbum
de estreia, ajudava bastante à composição de cada um dos temas. Reparei posteriormente
que a falta deste instrumento se deve essencialmente ao facto de que o músico que o
tocava no primeiro álbum, Walter Rizzo, ter abandonado o grupo neste segundo trabalho,
sendo substituido pelo violinista Stefano Olivan.
No entanto, nas audições subsequentes do álbum, cedo a falta da sanfona foi
compensada, uma vez mais devido à qualidade do trabalho deste quinteto do norte de
Itália. Com efeito, a principal força deste grupo reside não na qualidade da execução
deste ou daquele instrumento em particular (embora ela exista), mas sim na forma como os
músicos se interligam na perfeição na interpretação dos temas, formando um verdadeiro
grupo. É perfeitamente perceptível que qualquer dos executantes tem um domínio dos
instrumentos que toca, mas o essencial é o à vontade e a familiaridade que os músicos
têm com os temas que compõem o seu repertório.
Exclusivamente acústicos, quase todos os temas escolhidos pelos BEV provêm da
rica tradição musical de zonas do norte de Itália, tais como a Emilia-Romagna, Veneto
ou Apeninos. No entanto os BEV não se limitam a tocar os temas do modo tradicional. Eles
recuperam-nos e reinventam-nos, atribuindo-lhes sonoridades contemporâneas muito por
culpa de uma forte componente rítmica. 'Ed Cò', 'Numero 172 Contravento', ou 'Trexelena'
são alguns dos temas onde a energia dos BEV está bem patente, e que nos fazem ansiar
pela oportunidade de ver ao vivo estes executantes. No entanto, os músicos são também
suficientemente versáteis para alternarem os temas mais enérgicos com algumas baladas
mais suaves como 'Na Cansoun da Gnint', 'Ballo dell'Orso', ou 'Una Cecilia'.
Para concluir, pode dizer-se que mais uma vez estes italianos demonstraram como
pode ser bela a recuperação de temas tradicionais quase esquecidos. E se tivermos em
consideração que grande parte dos músicos que se dedicam a esta recuperação da
tradição (não só em Itália, mas no resto da Europa, incluindo Portugal), o fazem com
muito poucos apoios por parte das entidades responsáveis pela defesa da cultura popular,
é inevitável a seguinte questão: se com poucos apoios, o resultado tem muita qualidade,
o que seria se estas bandas tivessem os apoios que merecem. 