Fado
Mísia e o
"Ritual" de reencontro com as origens"Ritual" é o mais recente disco de Mísia, que marca um
certo reencontro com o Fado na sua forma mais tradicional - feito a pensar no estilo que
se ouvia nos anos 50 e que ainda hoje ecoa nas casas de fado. Um disco que troca a
sofisticação pelas raizes populares da canção.
Portuense, de mãe catalã, Mísia canta o Fado em todos os palcos do mundo.
Herdou a relação com o espectáculo da avó, actriz, e da mãe, bailarina clássica.
Após 20 anos de vivência no Porto, por motivos familiares, decide ir para Barcelona.
O interesse por diferentes formas culturais que a foram tocando durante a sua
formação consolidou-se num olhar especial para as suas próprias raízes. E, após um
primeiro embate crítico, a fascinação de Mísia pelo Fado levou-a a considerá-lo como
a sua identidade e origem.
Em 1990 regressou a Portugal, onde reside até hoje, e começou a lutar pela
valorização desta forma de expressão musical, através da palavra, dos poemas
escolhidos para ilustrar um mundo de sensações e experiências. Transportou para o fado
as palavras de poetas notáveis da Língua Portuguesa como Fernando Pessoa, Mário de
Sá-Carneiro, Natália Correia, António Botto, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Agustina
Bessa-Luís e o prémio Nobel José Saramago, escreveram especialmente para o seu
repertório.
"Mísia", o seu primeiro disco, foi editado em 1991, pela EMI Valentim
de Carvalho. Em 1993 editou o segundo, "Mísia Fado" inicialmente edição de
autor, a que a BMG acabaria por apôr o seu selo. "Tanto Menos, Tanto Mais" de
1995, também pela BMG. Prefigurou-se a consolidação da carreira internacional da
artista. "Tanto Menos, Tanto Mais" foi agraciado com o prémio da Academia
Charles Cros, como melhor disco do ano.
"Garras dos Sentidos" foi editado em 1998, com o selo Erato-Detour
(França) e distribuído pela Warner Music. Em Portugal foi disco de prata com 14.000
cópias vendidas. O disco tem edição em 62 países do mundo, tendo vendido cerca de
190.000 unidades. A este seguiu-se "Paixões Diagonais" de 1999, também editado
pela Erato-Detour (Warner Music) e reafirma o sucesso de Mísia em todo o Mundo.
Agora em 2001, Mísia grava o seu sexto disco, "Ritual", apresentado
em Junho na "Cour d'Honneur du Palais des Papes", num concerto integrado na
programação do Festival de Avignon, sendo a única cantora a actuar nesse espaço
lendário, desde a primeira edição do Festival.
Com "Ritual" é tembém a primeira vez que Mísia apresenta fados na
sua forma mais tradicional. Um trabalho, que segundo a cantora, se aproxima mais daquilo
que se vai ouvindo nas casas de Fado. É uma espécie de regresso às origens e o fechar
de um ciclo na sua carreira, onde a sofisticação é aqui trocada pelo som do fado nos
anos 50.
O disco foi gravado com um microfone especial - com que se gravava há 40, 50
anos, e que capta o grão da voz, todas as imperfeições. Cada fado foi registado com um
só "take", como se de uma noite de fados se tratasse. "Ritual" foi
gravado só com Guitarra, viola e Baixo.
Também nas letras há mudanças, onde até um texto de uma tal Maria João
Dâmaso - de que se perdeu o rasto e que servia num restaurante nos anos 50 - figura neste
disco: "um texto como se escrevia naquela época".
Ao contrário dos trabalhos anteriores, as letras não são adaptações de
textos literários. Aqui ouvem-se palavras de Amália Rodrigues, João Monge, de uma
Susana Aguiar - a própria Mísia no papel da escrita. Estão também presentes Rosa
Lobato Faria e José Carlos Ary dos Santos, Manuela de Freitas e Mário Claúdio.
É caso para dizer que Mísia deixou as lantejoulas no guarda-fato e abraça a
tradição do fado de Lisboa. Mas não é por isso que deixa de lado a forma muito pessoal
de interpretar o fado. Continua-se a sentir a presença da sua personalidade, única e
nada "ortodoxa". 