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Romanceiro Velho e Tradicional

Pere Ferré (instituto de Estudos sobre o Romanceiro Velho e Tradicional , Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa)

Romanceiro é um género poético de origem medieval, que corresponde, na península Ibérica à balada narrativa medieval europeia. Data de 1421 o mais antigo documento conhecido, tratando-se de um romance coligido num caderno pelo maiorquino Jaume de Oulesa, estudante de Direito, em Florença, que com a sua própria mão transcreveu a balada peninsular “Gentil dona, gentil dona, dona de bell paresser”, numa língua mista de (castelhano e catalão). Durante, ainda, o século XV, um autor palaciano – o Marquês de Santillhana – contrasta “aquellos que syn ningund orden, regla nin cuento fazen estos romançes e cantares de que las gentes de baixa e de seruil condiçon se alegran”, com a poesia feita com rimo, metro, verso, ou arte desse mesmo século, tanto o gramática Nebrija como o poeta Encina, dão foros de cidadania poética a este género, incluindo-o entre os exemplos aduzidos nos seus trabalhos (isto sem esquecer que o próprio Encina foi autor de romances). Não obstante estas datas, parece ser evidente que o Romanceiro, enquanto herdeiro da irregularidade formal da epopeia medieval e da sua própria funcionalidade, convivendo com outros géneros narrativos de fundo folclórico europeu é, clara e vocalmente, do século XIV. A sua fixação, ao longo do quatrocentos apenas reflecte o paulatino apreço que os compiladores de cancioneiros vão nutrindo pelo género com a contrapartida de lhe imporem algumas regras, nomeadamente a isometria e a regularidade de rima, para além da própria selecção temática, feita ao gosto da época dos seus coleccionadores. Toma-se, assim, extremamente difícil a definição de um género nascido sob o declínio das gestas castelhanas (das quais herda a língua) e do contacto com cantares narrativos breves europeus, introduzidos na Península Ibérica por jograis, e que assume estilos e formas diversos desde os seus primeiros passos (século XIV) até alcançar uma certa estabilização no século XV e primeiro quartel do XVI. Por seu turno, na segunda metade do século XVI, a barroquização crescente do género alterá-lo-á profundamente, perdendo a sua narratividade e adquirindo uma tonalidade extremadamente lírica. Mas, em paralelo com a versão fixada no códice manuscrito e no livro ou folheto impresso, o Romanceiro viveu e vive na memória colectiva, transmitido de geração em geração (daí as erróneas designações popular e oral para este género).

O Romanceiro é a sincrese de um género, um estilo e uma forma. No que diz respeito ao primeiro aspecto, enquanto género defenir-se-á pelo épico, sendo poesia narrativa, isto é, são poemas em que a narração dos sucessos se desenrola mediante a acção de um narrador e das personagens através do discurso directo, Enquanto estilo, divide-se normalmente o Romanceiro em primitivo, jogralesa, trovadoresco, erudito, artístico e tradicional. Assim: a) o romance primitivo corresponde ao romance das origens, isto é, um fragmento épico autónomo que, desligado do seu contexto e "contaminado" por um ambiente socio-cultural, distinto do gerador das gestas, configurará um novo género. Destes romances primitivos derivarão os chamados romances velhos., b) o romance jogralesco é, normalmente, um extenso poema (por exemplo "Assentado está (Gaiferos en el pabeio real", composto por 604 heptassílabos), feito ou adaptado por um jogral profissional que em tudo imita os velhos cantares de gesta. c) O romance trovadoresco é assim chamado porque os seus autores são trovadores quatrocentistas ou do primeiro quartel do século XVI, como, por exemplo, Juan del Encina ou o próprio Gil Vicente. São estes romances, sem dúvida, muito mais breves (principalmente se os compararmos com os jogralescos), tendo como especial característica a de, sem quase nunca perderem a narratividade, manifestarem a expressão de um sentimento, o sofrimento pela ausência ou pela insensibilidade da amada, como o paradigmático "Yo me estava reposando" do próprio Encina, exemplo máximo da coita de amor na balada ibérica medieval. d) O romanceiro erudito é uma criação dos últimos anos do século XV que se prolonga através do século XVI. Surge inspirado em textos historiográficos, que a imprensa começa a divulgar, ou em velhos romances de tema épico, histórico ou lendário, fruto de novelizações reactualizadoras dos heróis do passado como exemplo para o presente. e) O romanceiro artístico será o último passo dado por este género, antes da revificação trazida pelo romantismo, em que a escola barroca desenhará novos contornos à poética romanceiril, Tendo Luís de Góngora, entre muitos outros poetas, como um dos seus cultores, encontraremos do romanceiro artístico, na Fénix Renascida ou no Postilhão deapolo, em Portugal, abundantes exemplos. f) O romanceiro tradicional não é um estilo originário mas o dos textos pelas memórias colectivas (com a excepção da maioria dos artísticos), uma vez memorizados e transmitidos de geração em geração, com variantes, foram adquirindo traços característicos que são vulgarmente designados por tradicionalidade. Esta tradicionalidade numa essencialidade que só é possível ao texto cujo autor já se perdeu, sendo simultaneamente sentido como pertença de todos. Como resultado do exposto, pode-se imaginar também aqui a enorme dificuldade de atribuir uma forma fixa e única a um género que sobrevive há cerca de 700 anos. Contudo, e mais uma vez com todas as ressalvas necessárias para as excepções, pode-se afirmar que o romanceiro é composto por versos de quinze sílabas, com rima toante única. Algumas excepções que podem parecer contrariar esta regra, devem-se aos arcaísmos presentes em certos romances tradicionais (por exemplo, a presença de dísticos não passa de velhas reminiscências de baladas) ou a contaminação com outros romances (provocando assonâncias várias) ou com outros géneros (por exemplo, a intromissão de fragmentos de canções líricas em romances tradicionais, ou certos remates, sob a forma de quadras, com Intuitos moralizadores).

Em Portugal, as primeiras ocorrências até hoje localizadas documentalmente não são anteriores ao último quartel do Século XV, recorrendo ao romanceiro poetas do Cancioneiro Geral (Nuno Pereira ou Jorge da Silveira têm presente o tema da mal maridada; Henrique da Mota e D. Pedro de Almeida utilizam versos do "Cid e Búcar", tal como Duarte de Brito de Meneses ou Pedro Homem o fazem de "Durandarte", etc.). Curiosamente, muitas das citações romancísticas utilizadas pelos compilados por Garcia de Resende, já se encontravam em português, sendo também importante assinalar que o próprio recurso a elas é prova suficiente da enorme popularidade do Romanceiro nesse final de século e, sem dúvida, nos dois seguintes, dado que autores como Gil Vícente, Camões, Miguei Leitão de Andrade, Diogo Bernardes, Rodrigues Lobo, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Gaspar Correia, Francisco Manuel de Melo, entre muitos outros, recorrem com extrema frequência a este género poético. Acrescente-se ainda que alguns dos romances peninsulares são compostos por poetas portugueses, como é o caso do romance de “Dom Duardos e Flérida”, de Gil Vicente, assim como muitos outros que, se não foram compostos por portugueses, foram buscar o seu referente a assunto nacional, como, por exemplo, o romance dedicado a João Lourenço da Cunha, ainda hoje cantado pelos serfaditas, ou a balada de “Isabel de Liar” inequivocamente cantada no Século XVI como aludindo aos trágicos amores de Inês de Castro e hoje conservado pelas tradições catalã e galega e, fragmentariamente, pela memória dos judeus de Marrocos, sem esquecer, ainda, a “Morte do Príncipe D. Afonso de Portugal”.

Com o advento do Romantismo, o Romanceiro foi redescoberto. Iniciou-se a pesquisa das memórias colectivas retomando a balada peninsular a sua dupla vertente: prosseguiu, por um lado, o seu natural percurso vivencial, de geração em geração, mas, por outro, começaram a florescer obras dedicados à compilação de versões, fixando-as, com maior ou menor fidelidade, em letra impressa. Assim, a Almeida Garrett se devem os primeiros materiais publicados, datando de 1824 o início das suas prospecções, como se pode confirmar cotejando o seu Cancioneiro de Romances, Xacaras e Soláos, manuscrito conservado na Sala Ferreira Lima da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Os motivos que o levaram a empreender este projecto foram, pura e simplesmente, de ordem estética e não científica. Numa carta a Duarte Lessa, que servirá de prólogo a Adozinda (1 828), os seus propósitos encontram-se claramente expostos, transparecendo aí o desejo de dar a conhecer, ao público seu contemporâneo, um novo género destinado a revolucionar a literatura. No Romanceiro, tal como se encontrava conservado na memória do Povo, achar-se-ia a legítima literatura nacional, não contaminada pelas correntes culturais estrangeiras que tinham desvirtuado, desde pelo menos o século XVl, as letras portuguesas. Regressar-se-ia, deste modo, ao que de mais puro e genuíno havia nas letras pátrias. Da poesia popular havia que tirar todos os ensinamentos; nela se encerravam os mananciais de urna inspiração reformada.

A actividade colectora e editorial de Almeida Garrett deu os seus frutos. Com a renovação romântica, começou a surgir uma série de poetas que, aproveitando as instruções do seu mestre, constróem ou refundem romances. À cabeça de todos eles, pela primazia nas datas, temos José Maria da Costa e Silva, que, em 1832 e 1838, dá à luz duas obras com inspiração no Romanceiro, tal como o fizera Garrett em 1828. Não esqueçamos, também, na linha dos émulos do Visconde, o primeiro editor de um romanceiro algarvio, o arqueólogo S. R M. Estácio da Veiga, que já em 1 860 começara a publicar os frutos da sua recolha e que culminará, em 1870, com a publicação, em volume, do Romanceiro do Algarve. Teixeira Soares, por seu turno, que coligira romances para enviar a Garrett, com a morte deste entregará a sua colecção, oriunda da ilha de S. Jorge, a Teófilo Braga, editada sobre o título Cantos Populares do Archipelago Açoriano (1869). Entre esta data e os primeiros anos do Século XX, graças ao Mestrado exercido por Leite de vascocellos e pelas edições e estudos de Teófilo Braga, sem esquecer o notável contributo de figuras como Míchaëlis de Vasconcelos, Adolfo Coelho, Consiglieri Pedroso, José Joaquim Nunes, Álvaro Rodrigues de Azevedo, Tomás Pires, Francisco Alves ou Firmino Martins, entre muitos outros, a tradição portuguesa oferece as primeiras grandes jóias do romanceiro pan-hispânico, algumas delas nunca antes editadas e outras, ainda hoje, exclusivas da memória colectiva portuguesa. A renovação do interesse pelos trabalhos de campo, em Portugal, deu importantíssimos frutos e nomes como os de Giacomettí, Joanne Purceil, Manuel da Costa Fontes, para só citar alguns, figuram entre os impulsionadores de uma tarefa que já parecia esquecida.

Como atrás se disse, o Romanceiro é um género nascido ao sabor das mais variadas influências, que vai desde a poesia épica às baladas, passando pela fixação de sucessos históricos. Nesse sentido, encontraremos nos seus versos as mais dispares construções temáticas. Em Portugal, esta poesia narrativa conserva passagens de cantares de gesta (tanto de origem peninsular como de proveniência francesa), temas de referente histórico, bíblico ou clássico e ainda outros, relacionados com baladas que circulavam desde a Idade Média, na Europa, bem como textos de assunto sagrado, religioso ou de milagres.

O Romanceiro tradicional Português continua vivo apesar das permanentes certidões de óbito passadas pelos seus colectores; e, se é certo que alguns romances parecem ter desaparecido, pois conhecemo-los por versões únicas recolhidas no século XIX ou princípios do século XX, algumas recolhas aparecem pela primeira vez em algumas recolhas efectuadas nas últimas décadas deste século. Com efeito, este género poético narrativo permanece ainda nas memórias dos seus portadores, ligando ora a canções de trabalho, ora a cânticos ou recitações efectuados durante os serões ou noutras ocasiões de lazer, dependendo a sua vitalidade do grau de funcionalidade que mantêm. Obviamente que, com as transformações operadas nas fainas agrícolas, a sua presença vem sendo cada vez mais reduzida , mantendo-se cada vez mais relegado para a intimidade dos seus portadores. Não pretendo com estas palavras afirmar que os romances preservam a mesma vitalidade de há alguns anos e em todas as regiões portuguesas, mas tão-somente lembrar que, em províncias como Trás-os-Montes, na Beira Interior., no Alto e Baixo Alentejo, no Ribatejo, nalgumas áreas algarvias, em certas ilhas açorianas e no arquipélago da Madeira, o Romanceiro conserva uma enorme vitalidade, sendo possível recolher ainda hoje milhares de versões. Para além das áreas que aqui foram destacadas (áreas em que a presença do Romanceiro se encontra bastante generalizada), poderá afirmar-se que é possível recolhê-lo, se bem que com maiores dificuldades, em todo o território nacional, como provam recentes experiências feitas na zona saloia de Lisboa ou nos arredores do Porto. É, pois, o Romanceiro um género vivo e sê-lo-á enquanto os seus temas, neste longo percurso de sete séculos, forem sentidos como actuais nos meios onde até agora sobreviveu. No entanto, na forma em que continua a viver, na mais autêntica plenitude de herança e recriação permanente, tem os seus dias contados. Mas, como uma vez disse o crítico Paul Bénichou, não lamentemos a sua morte, pois não será uma morte absoluta; se bem que, por outra via, mediante fixações textuais, será tão eterno quanto qualquer texto literário o pode ser. Prova disso é esta fixação, em disco, baseada, na esmagadora maioria dos casos, na reprodução do verso recolhido da tradição, mas com nova música. No fundo como desde sempre viveu o Romanceiro: entre a fidelidade possível ao texto herdado e uma muito maior liberdade no seu registo musical; pois se grande parte dos versos continua a transmitir as palavras perdidas nos confins dos tempos, a sua textura melódica foi, sistematicamente, modificada, fiel ao tempo dos seus cantores. E assim, graças e este projecto, cheio de desafios, prossegue a história.
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Pere Ferré, Instituto de Estudos sobre o Romanceiro Velho e Tradicional
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa


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