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Gaiteiros de Lisboa

 

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Macaréu, 2002

Alinhamento
1. Era não era do tamanho de um Pardal
2. Cantiga de Quadras
3. Contra Chula não há Argumentos
4. Velha Bufelha
5. Plantei Amores
6. O Tejo corre no Tejo
7. Quando é Lua Cheia
8. Quando Judas teve Sarampo
9. Terra de Ninguém
10. Aqui há gato... Quem me tramou?
11. Canto de Trabalhos
12 e 13. Nordeste e Mbira do Norte
14. Rondacalhe

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Crítica
Gaiteiros de Lisboa - Macaréu
Música de Inquietar consciências
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Por: José Miguel

Macaréu marca o regresso dos Gaiteiros de Lisboa aos discos, neste caso avançando de forma definitiva para as composições originais. É caso para dizer que - depois de Macaréu - os Gaiteiros de Lisboa nunca mais serão os mesmos, como sempre.

Macaréu é um disco amadurecido, surgindo pouco depois do grupo ter apostado na edição ao vivo de praticamente todo o seu repertório anterior. "Dança Chamas" foi, então, o trabalho que encerrou um ciclo, ficando o registo de uma boa dose da energia e irreverência, que marca os concertos do grupo.

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Ir para... A opinião de João Maia
Leia também a opinião de João Maia, colaborador do At-Tambur.com - que também nos fala do que viu e ouviu neste novo disco dos Gaiteiros de Lisboa. Mais...
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Neste novo trabalho percebe-se logo uma redução significativa das percursões "bombásticas" - uma das imagens de marca do grupo - feitas sobretudo a partir dos bombos, alinhados e dispostos como timbalões gigantes. No seu lugar, José Salgueiro introduz uma espécie de "set" de bateria - recorrendo a um punhado de instrumentos populares, adaptados e dispostos por forma a tirar partido dos sua faceta de baterista.

Este é, seguramente, o primeiro impacto sentido neste disco - o qual pode provocar uma certa estranheza aos fãs do som que caracterizou até aqui os Gaiteiros de Lisboa, onde não era raro encontrar pessoas que conheciam melhor todos aqueles ritmos mutantes, do que até as próprias letras e melodias.

Na verdade, para muitos, a presença tão significativa das percussões funcionava como uma espécie de contradição ao próprio nome do grupo - que afinal apostava mais nos ritmos e nas polifinias vocais, do que nas gaitas de foles e todas as outras gaitas inventadas.

É verdade que o grupo começou a tocar na rua, precisamente com gaitas de foles, uma caixa e um bombo - mas isso nunca limitou os caminhos a trilhar. De resto, a única coisa que os Gaiteiros escolheram não fazer foi o uso de cordofones, na intenção de fugir de um certo som já instalado.

Neste novo disco, o tema "Era do tamanho de um pardal" foi o escolhido para promover o disco "Macaréu". Este sim, aposta na continuidade de uma das outras facetas do passado - as lenga-lengas - músicas que contam histórias sobre qualquer coisa ou simplesmente brincam com o som das palavras de forma exímea. Em cada um dos discos, Carlos Guerreiro traz-nos uma destas incongruências, as quais são, quase sempre, as músicas que ficam mais tempo na memória.

Pelo que foi dado a conhecer ao vivo, Macaréu perpetua o lado mais informal da música dos Gaiteiros de Lisboa, a avaliar pelo início dos espectáculos com a peça "Rondacalhe" (o último tema do disco) - que coloca os gaiteiros numa espécie de rábula instrumental, em que oscilam entre desabamentos musicais constantes. Uma peça construída nas supresas e nos truques para "sair do sério".

Mais genericamente, Macareu aposta em arranjos complexos - algo que permite a este disco um estatuto de múltiplas (e quiçá) infinitas audições - isto, ao lado de textos irreverentes, brilhantemente adaptados às melodias, aos ritmos e aos esquemas vocais polifónicos: sem dúvida, esta última, a melhor e mais consistente característica, que atravessa a história destes Gaiteiros, desde os tempos de "Invasões Bárbaras", o primeiro disco.

Como nem sempre fazer novo é fazer de novo; é sempre possível encontrar em Macaréu irrefutáveis traços da personalidade destes músicos, das suas qualidades individuais e da sua consistência em conjunto - mantendo uma ligação ao passado, que vem marcando a história da música portuguesa com um estilo inventado e completamente original.

Mas, também é possível perceber algumas fragilidades, que resultam - em grande parte - de um trabalho de estúdio, que não cresceu no ambiente de grupo. Macaréu é um disco feito de temas vincados nas características dos seus respectivos autores. É fácil distinguir quais são aqueles que foram criados, imaginados, transpirados pelo Carlos Guerreiro; e quais os temas pensados, compostos e arranjados pelo José Manuel David. Em alguns casos, a música neste Macaréu ganharia se as ideias fossem efectivamente trituradas numa onda conjunta: acreditando que o todo é muito mais que a soma das partes.

É impossível dizer se este disco é ou não o melhor trabalho dos Gaiteiros de Lisboa. Estamos perante uma obra mais conceptual e elaborada do que nunca - que corre deliberadamente todos os riscos de quem quer inovar na música portuguesa - uma tarefa difícil, elevada por expecativas (sempre) muito altas.

Afinal de contas, é preciso ter muita coragem para editar um disco. Macaréu é, por estas e muitas outras razões, uma excelente obra - daquelas que marcam e inquietam consciências. Voltar ao Topo

 

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